‘Algodão’ libertado pela ‘Sumaúma’ é causador de alergias?
Com a chegada da Primavera, regressa um fenómeno já conhecido na Região: a presença no ar do chamado ‘algodão’ libertado pelas árvores de Sumaúma. A percepção de que esta fibra provoca alergias respiratórias é recorrente entre a população. Será verdade?
A verdade é que não encontra sustentação na evidência científica nem nas orientações das entidades de referência em Alergologia.
A Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica baseia a avaliação do risco alérgico na monitorização de pólenes, que são reconhecidos como os principais aeroalergénios no exterior. No caso do Funchal, os boletins polínicos apontam para níveis geralmente baixos nesta fase, com predomínio de espécies como cipreste, pinheiro, plátano e gramíneas. A sumaúma não surge identificada como fonte relevante de alergia respiratória.
Também a Direcção Regional de Saúde enquadra a problemática no domínio dos pólenes, recomendando a consulta dos boletins polínicos como ferramenta essencial de prevenção para pessoas com sintomas.
O ponto central, sublinhado por especialistas, é que o material branco visível não corresponde a pólen, mas a fibras que envolvem as sementes da árvore. Até à data, não existe evidência consistente de sensibilização alérgica mediada por IgE associada a estas fibras. Consequentemente, não há testes específicos para a sumaúma no âmbito do diagnóstico alergológico, apesar de algumas pessoas procurarem essa avaliação por acreditarem estar perante o principal desencadeante dos sintomas.
Isso não significa ausência total de impacto. Em pessoas mais sensíveis, nomeadamente doentes com rinite alérgica ou asma, estas fibras podem provocar irritação mecânica das vias respiratórias. O resultado pode traduzir-se em sintomas semelhantes aos de uma alergia, como espirros, congestão nasal ou desconforto ocular, ainda que sem o mecanismo imunológico típico das reacções alérgicas.
A coincidência temporal com a época de maior circulação de pólenes contribui para reforçar a associação errada. Na prática, muitos dos sintomas atribuídos ao ‘algodão’ podem resultar, total ou parcialmente, da exposição simultânea a pólenes, esses sim bem identificados e monitorizados.
A conclusão é, por isso, inequívoca: não há prova científica de que o ‘algodão’ da sumaúma seja um alergénio relevante. Trata-se de um factor de incómodo ambiental, visível e facilmente identificável, que pode agravar a percepção de sintomas, mas que não substitui o papel central dos pólenes na explicação das alergias respiratórias sazonais.
Perante sintomas persistentes, a recomendação mantém-se: avaliação médica diferenciada e acompanhamento em Imunoalergologia, com base em testes validados e não em percepções sazonais.