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Os imigrantes e o nosso bem-estar

Nos últimos dias tive de pedir, por diversas vezes, via uma aplicação do telemóvel, que me viessem entregar em casa os produtos que comprei num supermercado e numa farmácia. Os entregadores eram quase todos imigrantes, muito simpáticos e eficientes nas entregas. Este facto levou-me a pensar na importância dos imigrantes na nossa qualidade de vida.

Necessitei de me deslocar e tive de recorrer a TVDEs sendo que alguns dos condutores eram imigrantes que me conduziram ao meu destino com tranquilidade e cuidado. Quando vou a restaurantes algumas vezes sou servido por imigrantes ou sei que nas cozinhas estão imigrantes a trabalhar para mim. O jardim do prédio onde vivo é cuidado por imigrantes, assim como os ajudantes dos serviços técnicos são imigrantes... estes são apenas alguns dos muitos exemplos do trabalho que os imigrantes fazem para mim e, quase de certeza, para uma grande maioria dos leitores desta coluna de opinião.

Lembro-me de em 2012 ter estado num júri de doutoramento na Universidade de Strathclyde, na Escócia, onde a doutoranda apresentou uma tese sobre as alterações demográficas na Escócia e concluía que dado o envelhecimento populacional que se estava a verificar não havia a possibilidade de cuidar dos idosos sem haver um grande número de imigrantes a ajudarem nas tarefas do seu cuidado. Com os dados apresentados não fiquei com dúvidas que uma sociedade envelhecida precisa de imigrantes para que a qualidade de vida dos idosos não seja posta em causa.

No Reino Unido, conheci um desses imigrantes, de que a investigadora aludia na sua tese, um jovem madeirense que lá trabalhava numa empresa de cuidados ao domicílio.

Segundo me explicou a Segurança Social lança concursos com as necessidades de cuidados que necessita e as empresas concorrem para os fornecer. A empresa onde trabalhava era das mais conhecidas pela qualidade do serviço prestado. A Segurança Social paga, os utentes recebem os apoios fornecidos pelo privado.

Os cuidadores usam uma aplicação onde registam todos os cuidados que prestam a cada utente, assim como algo de estranho que se esteja a passar. O serviço central da empresa valida as informações e toma providências caso ache que é necessária a intervenção de outros prestadores como médicos ou enfermeiros. A Segurança Social faz inspeções para verificar que tudo está conforme com o contratualizado com as empresas.

Lembro-me da felicidade deste madeirense quando falava deste seu trabalho e das aventuras que eram no Inverno prestar o serviço de muda de fralda a meio da noite.

Compreendi com ele que estranhos podem-se preocupar e muito com o bem-estar de idosos que lhes são desconhecidos até começarem a cuidar deles... acho que com ele perdi o receio de ficar dependente.

Com a aprovação do Estatuto da Pessoa Idosa no mês passado fica estabelecida a defesa da permanência do idoso no seu lar. Penso que falta definir qual o pacote financeiro para a concretizar e o modo de implementar. Princípios gerais são fundamentais, mas sem medidas concretas e financiamento adequado, a realidade no que se refere às condições de vida dos idosos em Portugal tardará em mudar.

Claro que muitos dirão que a imigração não é a solução para ajudar a resolver os problemas do envelhecimento e que melhor era fomentar a natalidade. Se formos por essa solução de aumento de natalidade, talvez venha a acontecer que quando encomendar as compras para serem entregues em casa, em vez de esperar 20 minutos para as ter, vai esperar 20 ou mais anos para as receber!