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A Psicologização da Alma

Vivemos num tempo em que quase tudo o que sentimos precisa de explicação. Já não basta ser distraído, sensível ou reservado, é preciso identificar a causa, dar-lhe um nome técnico e encaixá-la numa categoria. A linguagem da psicologia, criada para compreender e aliviar sofrimento, tornou-se o principal modo de descrever quem somos.

O problema não está na psicologia, mas no lugar excessivo que lhe demos fora do consultório. Perante um comportamento ou traço de alguém, não é raro que me peçam, ora em brincadeira, ora a sério, para dar um diagnóstico.

A psicologia trouxe ganhos claros e importantes, retirando estigma do sofrimento mental, deu ferramentas para lidar com a dor e tornou possível pedir ajuda onde antes havia silêncio. Mas, ao sair do consultório e entrar no discurso quotidiano, algo mudou. Aquilo que era uma linguagem de cuidado tornou-se, muitas vezes, uma linguagem identitária, e aquilo que servia para compreender passou a reduzir.

Hoje, descrevemos pessoas quase exclusivamente com termos clínicos. Já não dizemos que alguém é generoso, dizemos que é “people pleaser”. Já não falamos em intensidade ou paixão, falamos em personalidade dependente; o meticuloso e consciencioso virou obsessivo, o reservado tornou-se evitante, o sensível é agora emocionalmente desregulado. A intenção é compreender, mas o efeito pode empobrecer a profundidade da experiência de ser humano.

A psicologia nunca teve como missão apagar a complexidade humana, e o seu objetivo é ajudar cada um a viver melhor consigo mesmo. No entanto, difundiu-se a ideia de que sentir muito, sofrer, hesitar ou amar sem garantias é sinal de falha, como se a experiência humana precisasse, a todo momento, de ser corrigida. E a busca por um ideal impossível leva, inevitavelmente, à frustração.

Estudos recentes ajudam a enquadrar este fenómeno sem alarmismo. Inquéritos internacionais de grande escala, como os conduzidos pelo McKinsey Health Institute com milhares de jovens da geração Z, mostram níveis mais elevados de ansiedade, depressão e stress em comparação com gerações anteriores. Fatores como pressão económica, incerteza laboral, uso intenso de redes sociais e exposição constante à informação estão bem identificados.

Estes dados são importantes e devem ser levados a sério. Mas o que merece reflexão não é apenas o reconhecimento do sofrimento psicológico, e sim a tendência crescente de transformar esse sofrimento no principal eixo da identidade. Reconhecer dificuldades emocionais é diferente de definir-se quase exclusivamente por elas. A ciência descreve níveis de sofrimento, mas não prescreve que a vida deva ser vivida em permanente linguagem clínica.

Os nossos pais e avós também enfrentavam medos, tristezas e inseguranças, embora muitas vezes isso não fosse reconhecido como hoje. Falava-se das pessoas através do seu carácter: alguém era teimoso, meigo, nervoso, sonhador, cabeça no ar, calado, orgulhoso, leal ou trapalhão. Essas palavras não eliminavam o sofrimento, mas situavam-no dentro da vida e da personalidade de cada um, dando-lhe uma dimensão mais humana do que meramente patológica.

Nada disto é um apelo à negação da psicologia ou do sofrimento psíquico, porque a psicologia é essencial e continuará a sê-lo. Mas é importante lembrar que nem tudo o que dói é doença, nem tudo o que se repete é trauma, e nem tudo o que é intenso precisa de rótulo. Há fases da vida, crises, perdas, amores difíceis, e pessoas a atravessá-las.

A psicologia ajuda quando amplia possibilidades e devolve escolhas, não quando estreita identidades ou transforma cada emoção em sintoma. Quando serve a vida, não quando a substitui.

Talvez o equilíbrio esteja em recuperar duas linguagens, a clínica, quando necessária, e a humana, sempre. Falar de nós como pessoas, não apenas como casos, e acima de tudo compreender que há coisas que se trabalham em terapia, e outras que simplesmente se vivem.

Ser humano é ser em transformação, contraditório, incompleto e, às vezes, confuso. Kierkegaard chamou à angústia o preço da liberdade. A psicologia não existe para abolir essa angústia, mas para ajudar o sujeito a relacionar-se com ela de forma menos paralisante, encontrando modos mais vivos e responsáveis de existir.