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Explicador Madeira

O papel dos algoritmos na experiência diária da internet

Neste Explicador entenda como cada clique, pesquisa ou vídeo visto online deixa pistas que os sistemas digitais analisam para prever interesses e recomendar conteúdos personalizados

Abre uma rede social e, poucos minutos depois, surge um vídeo sobre um tema que acabou de pesquisar ou até mesmo algo de que falou recentemente com um amigo. Para muitos utilizadores, a sensação é quase inquietante.

Será que os algoritmos sabem o que estamos a pensar?

Na realidade, não há telemóveis a ‘ler mentes’. O que existe é um conjunto sofisticado de sistemas de recomendação que analisam padrões de comportamento digital e fazem previsões extremamente precisas sobre os interesses de cada pessoa.

Afinal o que são os algoritmos das redes sociais?

Os algoritmos são programas informáticos que analisam dados e tomam decisões automáticas com base nesses dados. Nas plataformas digitais como redes sociais, serviços de vídeo ou lojas online, estes sistemas são usados para decidir que conteúdos mostrar primeiro a cada utilizador.

Em termos simples, o algoritmo tenta responder a uma pergunta: “Qual é o conteúdo que esta pessoa tem mais probabilidade de querer ver agora?”

Para chegar a essa resposta, os sistemas utilizam modelos de recomendação, que analisam grandes volumes de informação sobre os utilizadores e os conteúdos disponíveis

Estes sistemas funcionam, geralmente, em duas fases. São elas:

  • Selecção de conteúdos possíveis - entre milhões e milhões de publicações ou vídeos disponíveis
  • Classificação por relevância – ordena aquilo que tem maior probabilidade de gerar interesse ou interacção.

Que dados é que os algoritmos utilizam?

Ao contrário do que muitos imaginam, os algoritmos não dependem apenas de pesquisas ou palavras escritas. Eles observam uma enorme variedade de sinais do comportamento online.

  • publicações em que se clica ou comenta;
  • vídeos que se vê até ao fim;
  • contas que se seguem;
  • tempo passado a olhar para um conteúdo;
  • pesquisas feitas na plataforma;
  • localização aproximada ou idioma.

Ao longo do tempo, estes sinais ajudam a construir um perfil digital de preferências.

Estudos sobre sistemas de recomendação indicam que estas plataformas utilizam técnicas de análise de dados e aprendizagem automática para identificar padrões e prever aquilo que poderá interessar a cada utilizador.

Prever exatamente aquilo que queremos ver

 A sensação de que o algoritmo ‘adivinha’ pensamentos resulta de três factores principais.

O algoritmo aprende com o comportamento do passado. Dado isso, se alguém vê frequentemente vídeos sobre culinária, o sistema conclui que existe uma probabilidade elevada de querer ver mais conteúdos semelhantes.

Muitos sistemas usam métodos chamados ‘filtragem colaborativa’, que analisam comportamentos de milhares ou milhões de utilizadores para encontrar padrões comuns.

Por exemplo, se pessoas com interesses semelhantes costumam ver determinado vídeo, o algoritmo pode recomendá-lo a outros utilizadores com perfis parecidos.

Os algoritmos não analisam apenas acções explícitas. Muitas vezes observam detalhes subtis como o tempo que se permanece a visualizar um vídeo, se se faz pausa ou se voltamos atrás para o rever.

Mesmo sem clicar em ‘gosto’, estes comportamentos podem indicar interesse.

Os algoritmos não sabem exatamente o que queremos, apenas fazem previsões baseadas em dados.

Mas como analisam milhões de interações, as previsões podem tornar-se surpreendentemente acertadas.

O papel da personalização

As plataformas digitais utilizam estes sistemas para criar experiências altamente personalizadas. O objectivo principal é mostrar conteúdos que mantenham os utilizadores interessados e activos na plataforma.

Segundo análises sobre algoritmos de recomendação, esta personalização permite distribuir conteúdos de forma mais eficiente, ajustando o que cada pessoa vê com base no seu histórico e comportamento.

O lado controverso dos algoritmos

Apesar das vantagens, como descobrir conteúdos relevantes, estes sistemas também levantam preocupações.

Uma das mais discutidas é o fenómeno conhecido como ‘bolha de filtros’, em que os utilizadores passam a ver sobretudo conteúdos que confirmam as suas preferências e opiniões.  Isso pode reduzir a exposição a perspectivas diferentes e reforçar certos interesses ou crenças.

Além disso, como muitos algoritmos priorizam conteúdos que geram maior interacção, mensagens mais emocionais ou polémicas podem ganhar maior visibilidade.

Num mundo cada vez mais digital, os algoritmos tornaram-se uma presença invisível, mas constante no quotidiano. São eles que ajudam a organizar a enorme quantidade de informação disponível na internet e a decidir que vídeos, notícias ou publicações aparecem primeiro no ecrã.

A sensação de que conseguem ‘ler pensamentos’ nasce da precisão com que analisam padrões de comportamento e antecipam preferências. Mas, na prática, aquilo que parecem adivinhar resulta sobretudo das pistas que os próprios utilizadores deixam ao navegar online.

Cada clique, pesquisa ou segundo passado a ver um conteúdo contribui para alimentar esses sistemas. No final, mais do que prever pensamentos, os algoritmos fazem algo mais simples e talvez mais revelador. Eles aprendem com aquilo que fazemos na internet.