Menos expectativas, mais respostas

Não temo a minha idade, reflexo do que fui e do que sou, pois é ela que me confere a liberdade e a maturidade para viver sem medos e com a experiência adquirida. Caminho com o que sou, não com o que aparento. Procuro ver com clareza os outros e a mim própria, tentando permanecer na lucidez com humildade e gratidão, sem nunca perder de vista a simplicidade. Não caminho para ter razão, mas para permanecer inteira.

Posso temer e até tremer, mas não permito que isso me impeça de falar e fazer o que considero o mais correcto. A coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de agir, apesar do medo. Valorizo o que está ao meu alcance fazer, em detrimento do que pode parecer impossível realizar. Avalio as pessoas pelo que são, pela sua essência, não pelas aparências. O que não compreendo dá-me a humildade de pensar que não sei tudo, ou melhor, que comparando com todo o saber, nada sei.

Vivo numa Terra que apelidam de “paraíso”. As gentes da minha Terra foram outrora reconhecidas pela sua persistência e coragem perante as adversidades.

Gente pobre e trabalhadora que soube preservar as suas tradições e as trouxe até os nossos dias. Homens e mulheres que criaram os filhos e ajudaram os netos, e que sofreram grandes privações para que os filhos tivessem melhor vida do que eles. Não souberam, no entanto, manter-se imunes à onda de iliteracia política nem ao analfabetismo funcional, tão conveniente em actos eleitorais. Aparentemente, hoje, somos uma comunidade de pobres que se julgam ricos e que, por isso, tratam de defender os seus “valores” elegendo indivíduos que são reverenciados. Dizem-se cansados de votar tantas vezes, de escolher e trocar eleitos sucessivamente, mas os problemas eternizam-se. Se o voto fosse apenas razoável não haveria tanta gente a votar contra os seus interesses. Mas é o que temos.

Mas estamos todos felizes. Vivemos num “paraíso “fazendo de conta que sentimos aquilo que dizemos. Vivemos num “paraíso “cuja população está cada vez mais envelhecida, com as consequências daí inerentes. Os jovens saem para concluir o seu percurso académico superior e já não regressam. Excepto os que, por um golpe de sorte, ou pelos meios que se suspeita, conseguem integrar o mercado de trabalho.

Habitamos num “paraíso” Reserva da Biosfera, com a particularidade de ser também uma ilha em que, por fado, destino ou qualquer maldição, projectos e investimentos impulsionadores de desenvolvimento e algum progresso, estão condenados à nascença ou a morte precoce. Assistimos, paulatinamente, uns com tristeza e desalento, outros impávida e serenamente, ao encerramento de imóveis e estruturas locais, bem como à desmobilização das actividades para que foram dimensionadas. Coisas de pouca monta, dirão alguns. Acidentes de percurso, dirão outros. Para qualquer comum cidadão, são coisas necessárias para o seu bem-estar físico, mental e social. Nunca terem deles usufruído é uma coisa. Tê-los e perdê-los é incompreensível e inaceitável, sejam quais forem as razões invocadas. O tempo aqui não andou. Ele tropeçou e ficou parado. Pior. Voltou para trás. Mas a vida segue como se nada fosse.

Seria exaustivo enumerar todos os exemplos dos casos que se enquadram no que aqui descrevo. Vou referir apenas alguns, que julgo ser do conhecimento público desde algum tempo a esta parte:

Matadouro
Mercado municipal
Praça do peixe
Cinema
Parque de Campismo
Pousada da Juventude
USL (unidade de Saúde local - construção interrompida há mais de um ano), etc. etc.

Um “paraíso “que se preze teria tudo isto em funcionamento.

Cada um que tire as suas próprias ilações.

Sobram expectativas, mas faltam respostas.

Boa governação não é só decidir. É decidir atempadamente. Aqui, ali ou na Conchichina.

Madalena Castro