Sobre o sentir a ilha da Madeira
Desta vez, proponho uma análise sobre o sentimento de pertença à Ilha da Madeira a partir de uma perspetiva conceptual, distinguindo três categorias de indivíduos: madeirenses, amadeirados (1) e residentes. Com base nos conceitos de identidade territorial, pertença e apropriação simbólica do espaço, procurarei descortinar de que forma diferentes trajetórias de vida influenciam a relação emocional e identitária com o território insular.
A conclusão encaminhar-se-á para que o sentimento de pertença, não dependa exclusivamente da naturalidade e/ou do tempo de residência, mas também da intensidade do envolvimento social, cultural e simbólico com o lugar. A relação entre o indivíduo e o território tem sido amplamente discutida nas ciências sociais, particularmente nos domínios da sociologia e dos estudos culturais. O território é entendido não apenas como um espaço físico, mas como uma construção social e simbólica, onde se inscrevem memórias, práticas culturais e identidades coletivas. Neste contexto, a Ilha da Madeira constitui um espaço privilegiado de análise, permitindo observar diferentes formas de pertença e identificação com o lugar. O conceito de identidade territorial refere-se à relação simbólica e emocional estabelecida entre o indivíduo e o espaço que habita, resultante de processos de socialização, memória coletiva e vivência quotidiana. Estudiosos defendem que o espaço se transforma em lugar quando é apropriado simbolicamente, passando a integrar a construção identitária do sujeito. Por sua vez, o conceito de pertença envolve não apenas a permanência, mas o reconhecimento do território como referência afetiva e social. A distinção entre espaço e lugar permite compreender situações em que o indivíduo habita um território sem desenvolver um sentimento de identificação com o mesmo, fenómeno frequentemente associado à mobilidade contemporânea. Os madeirenses, enquanto naturais da ilha, apresentam uma identidade fortemente ancorada no território.
Esta ligação constrói-se desde a infância, através da família, das tradições culturais, da linguagem e da paisagem insular. A insularidade reforça este vínculo, promovendo um sentimento de continuidade e pertença associado à origem. Neste caso, a Madeira não é apenas um local de residência, mas um elemento estruturante da identidade individual e coletiva. Mesmo em contextos de emigração, a ligação simbólica à ilha tende a manter-se, evidenciando a força da identidade territorial herdada. Os amadeirados (1) distinguem-se por desenvolverem uma ligação progressiva ao território, resultante de uma escolha consciente de permanência. Não sendo naturais da ilha, constroem a sua identidade territorial através da integração social, da participação na vida comunitária e da apropriação gradual das práticas culturais locais. Este processo pode ser enquadrado no conceito de identidade construída, segundo o qual a pertença resulta da interação contínua entre o indivíduo e o contexto sociocultural. A Madeira transforma-se, assim, de espaço de acolhimento em lugar de referência afetiva, revelando que a pertença pode ser adquirida ao longo do tempo. Os residentes caracterizam-se por uma relação predominantemente funcional com o território. Apesar da presença física na ilha, não se verifica um processo significativo de apropriação simbólica ou de integração identitária. A Madeira surge como um espaço instrumental, associado a oportunidades profissionais ou circunstâncias temporárias. Neste caso, o território mantém-se como espaço geográfico, não se convertendo em lugar identitário.
A ausência de envolvimento social e cultural limita a construção de um sentimento de pertença duradouro. Assim, a análise comparativa evidencia que o sentimento de pertença à Ilha da Madeira não depende exclusivamente da naturalidade e/ou tempo de residência, mas da forma como o território é vivido, simbolizado e integrado na identidade do indivíduo. A distinção entre madeirenses, amadeirados e residentes, demonstra que a identidade territorial é um processo dinâmico, influenciado pela origem, pela experiência e pelo grau de envolvimento comunitário. A Ilha da Madeira afirma-se, assim, como um território onde coexistem múltiplas formas de pertença, refletindo diferentes modos de habitar, sentir e significar o lugar.
(1) Nova significação atribuída à palavra.