O Porto Santo precisa qualidade a sério
Já pensaram o que era, todos os anos, fechar o túnel para o Caniçal durante um mês e meio?
Lamento este desabafo. É fruto da minha avaliação, agora que mais vezes visito a Ilha. Tomara que assim não fosse. Mas não vejo interesse local em ter ambição por melhorar tudo o que se passa na Ilha. Tudo é feito com base na população nativa lá residente. Na melhoria das suas condições de vida. Séculos de terror e miséria deram lugar a cinquenta anos de satisfação das principais carências da Ilha Dourada. Muito foi feito para proporcionar as infra-estruturas essenciais: aeroporto, porto, estradas e pavimentos, comunicações, centro de saúde e assistência médica, dessanilizadora, saneamento básico, escolas, creches, recintos desportivos, acessos à praia, entre outras mais valias.
A exceção foi o campo de golfe, feito com o objectivo exclusivo de captar novos e melhores turistas.
Tudo num complemento salutar entre governo regional e câmara.
Mas, para manchar a intervenção, temos obras públicas que se arrastam no tempo e prejudicam as épocas de maior afluência de não residentes à Ilha. Fazer obras, no período de verão, que a todos perturbam e fazem se arrepender de não ter ido para Canárias, é absurdo inexplicável. Asfaltar, na estrada principal dos hotéis e acessos à praia, no final de Julho, devia ser crime. Pelo menos político.
Até ir ao supermercado é um momento difícil de constrangimento: pelo mau acesso e pouca disponibilidade do que se pretende adquirir. Vezes demasiadas não tem o que se quer comprar.
E nada é barato. Nem a estadia de pernoita nem os serviços que se adquirem.
Têm duas mil camas hoteleiras que nunca enchem completamente. Em agosto mais de uma dezena de milhar de veraneantes instalam-se como podem. Felizmente sem parque de campismo, encerrado para evitar essa máxima degradação de turismo.
Restaurantes são poucos e com serviços a roçar o desenrasque. Não fossem as centenas de jovens de São Tomé, espalhadas pelos hotéis e restaurantes, metade estariam encerrados por falta de pessoal. Aliviam mas não resolvem.
São poucos os restaurantes onde jantar pode correr bem. Estão escorados em famílias e profissionais que dirigem durante o verão com o melhor saber possível. Acaba por saber bem. Mas a maioria não satisfaz a clientela. Há sempre ineficiência e falta de saber ou meios para corresponder ao esperado.
Inauguraram novo restaurante sobre a praia. Excelente local e espaço. Já tinha regressado à Madeira quando abriu. Perguntei, a conhecidos, por ele. Responderam do mesmo modo que o identifiquei. E a comida? Disseram-me que tinham lá ido mas apenas tinham tomado um gin tónico.
É este turismo que no verão visita Porto Santo. Gasta pouco, reclama muito e nunca está satisfeito. A sua chegada no “Lobo” com percurso pedestre suplicante é, desde logo, anúncio do que está para vir.
Para os locais os turistas não merecem mais. É a sensação que fica. Não fazem nada para mudar esse estado de coisas.
Aliás, se formos analisar em profundidade, são poucas as realizações por iniciativa de portosantenses. Existe uma classe jovem dirigente no sector público, acompanhada por uns tantos pequenos empresários locais. O demais é feito por empresas e empresários exteriores ou que se fixaram em Porto Santo.
Os portosantenses pouca iniciativa têm no que é feito em Porto Santo. Não têm poder económico. Os investimentos privados de vulto são de não residentes. Resta-lhes o poder do voto e, ainda assim, apenas influenciando a natureza política da câmara municipal.
Sintoma máximo de decadência foi a destruição das máquinas e equipamentos preparados para iniciarem as obras de expansão do campo de golfe.
O maior ponto fraco é a liderança política. É o único município na Região Autónoma com chefia política bicéfala: um eleito, o outro nomeado. Tudo com receio de campos políticos opostos em Porto Santo e no Funchal. Ou no governo e na câmara. O povo elege um entre os seus cidadãos, enquanto a Madeira nomeia um para representante do poder “colonial”. O seu papel não se confunde. Ainda que possa ser do mesmo partido. O que acontece é que do mesmo partido ou de partidos diferentes, acabam sempre de costas voltadas.
Nada disto é bom para o Porto Santo.
O que me motiva é querer o melhor para Porto Santo. Desejar que a Ilha ganhe um estatuto de qualidade ímpar. Que seja bem sucedida e muito valorizada. Atraente para viver ou visitar.
Tenho pena de não poder levar todos os portosantenses a St. Barths, Mustique, Sardenha, Havaí, Bermudas, Bahamas, Ibiza, Formentera, Menorca, Bali, Míconos, Santorini ou Paros onde a qualidade destes destinos é invejável. Porque a fizeram com paixão e vontade de ter sucesso económico e social. Nenhuma destas ilhas, tanto per capita como por km2, teve tanto investimento público como Porto Santo mas, o resultado, fruto de uma vontade colectiva destas ilhas, orgulha as respectivas populações residentes como contribui para a sua atractividade. Julgo que nenhuma delas tem turismo durante mais de quatro meses. O Porto Santo tem.
Em todas essas ilhas, sazonais também, jantar em restaurante custa nunca menos de 150 ou 200 euros por pessoa. Dormir nos melhores hotéis nunca fica por menos dos dois mil euros por noite. Por vezes ultrapassa os quatro mil. É toda uma outra realidade onde se tem tudo, mesmo que caro. Pagam bem mas usufruem no máximo. Mas todos beneficiam pois esse sucesso é distribuído.
O caso mais bem sucedido é o de St. Barths, Saint Barthélemy de seu nome verdadeiro, território francês nas Caraíbas com 21 km2, metade de Porto Santo, com uma população de dez mil habitantes, mais de três mil sendo portugueses. A sua actividade económica anual é o turismo integrado numa estratégia de elevada qualidade, que apenas dura entre final de Outubro e Fevereiro. Depois vem a época dos furacões e fecham. O seu aeroporto apenas permite aviões com meia dúzia de lugares em voos a partir da ilha mais próxima (St. Maertens). É tudo por mar.
A aposta na qualidade superou todas as dificuldades e handicaps. Não há lugar para falhas.
É tudo a favor do sucesso económico. O que é preciso dizer é que, cada uma destas Ilhas, sabe que tem de pagar as suas contas. Ou arranjam receitas ou falta-lhes o dinheiro. Às autoridades públicas e às empresas. Não dá para ficarem sentados esperando que alguém venha fazer o que tem de ser feito.
Talvez o Porto Santo tenha dado o passo maior que a perna. Investiu muito nas infraestruturas públicas sem preocupação de rentabilidade. O único investimento que vejo exigência de lucro é o campo de golfe. É a única “dor de cabeça” da opinião pública, de alguma oposição e poucos jornalistas. No resto dos investimentos ninguém se importa saber se tem equilíbrio financeiro ou não. Preocupam-se com as despesas excessivas mas não se importam com as receitas. O orçamento regional paga. Não há taxas ou impostos para compensar. Foi feito tudo o que deve ser, ainda que sem preocupação de viabilidade.
O Porto Santo é especial. Na verdade, tem três estações: a alta no verão; a baixa em sete meses; e a inexistente durante a paragem do Lobo Marinho. O ano tem dez meses e meio.
Ainda não percebi a teimosia política em não providenciar navio substituto nas ausências do Lobo Marinho. É fácil perceber, porque é verdadeiro, que o dinheiro não dá para tudo. Umas novas prioridades farão abandonar outros investimentos. É assim em todo o lado. Mas é estranho contrariar o insistente apelo local para ter sempre navio. Porventura é preciso dispensar um apoio financeiro a essa ambição. Justa no meu entender.
A exploração do Lobo Marinho tem as dificuldades financeiras inerentes a uma linha marítima muito sazonal. Há que encarar, sem fugir ao custo público inerente à vontade política.
Se a Assembleia Municipal de Setúbal exige o não pagamento das portagens nas pontes sobre o Tejo, só o Porto Santo é que tem de pagar tudo sem subsídio?
Já pensaram o que era, todos os anos, fechar o túnel para o Caniçal durante um mês e meio?
Já tinha havido uma revolução! Não haveria zona franca. Nem porto comercial. Estavam noutro lado.
Mas tudo isto é complexo. Percebo perfeitamente. A excelência tem de ser global. Desde quem manda até quem segue as ordens. Não se pode querer o navio e depois ter tudo fechado e desprezado. Como o ferry que todos querem mas poucos viajam. O “Lobo” em Janeiro não é um fim, mas uma oportunidade. Faz parte de uma vontade colectiva que não existe. De um compromisso ainda inexistente. A excelência implica uma cultura pela qualidade e pela perfeição. Que as ilhas acima identificadas assumem. Que a Madeira procura aprimorar. Tenho muito orgulho no esforço colocado na procura por máxima qualidade na Pérola do Atlântico. Faz parte de nós.
É preciso que também passe a fazer parte da mentalidade portosantense.