Insígnias e insignificantes
Madeira escolhida para ser recordada espelha amplamente a autonomia?
As insígnias dos 50 anos de Autonomia geraram reparos em surdina. Não porque esteja em causa o valor de quem recebeu, nem os critérios que presidiram às escolhas. Cada nome tem a sua história, o seu contributo e a sua justificação. Ninguém tem nada a provar e seria tremendamente injusto transformar uma homenagem numa competição entre méritos.
Contudo, é inegável que houve alguma estranheza, que nada tem a ver com o habitual factor-surpresa, por sinal confundido com estranho sigilo processual. Olhando para uma lista que pretende assinalar meio século de Autonomia, fica a sensação de que algumas pessoas, sectores e percursos relevantes da vida regional ficaram de fora. Não porque necessariamente devessem estar na lista que faz questão de condecorar todo o povo, nem porque fosse possível nomear individualmente todos os que contribuíram para a Madeira na qual mandam os madeirenses. Mas porque, quando se escolhem 78 nomes que vão simbolizar 50 anos de história, algumas ausências ou omissões também são notadas e dão que pensar.
Uma lista desta natureza é sempre uma fotografia, com enquadramento previamente delineado. O que importa saber é se o prisma escolhido consegue dar uma imagem suficientemente ampla daquilo que foram estes 50 anos.
Como se sabe, a Autonomia não aconteceu apenas no Governo, no Parlamento, nos partidos ou nas instituições que a exerceram. A Autonomia fez-se nas empresas de todos os tamanhos que criaram riqueza e oportunidades, nas escolas que formaram gerações, nos hospitais que cuidaram de milhares de conterrâneos, na investigação, na cultura, no desporto, na comunicação social, no movimento associativo, nas instituições sociais e na diáspora.
Houve professores, médicos, enfermeiros, advogados, engenheiros, trabalhadores, investigadores, artistas, jornalistas, dirigentes associativos e tantos outros que, sem cargos políticos ou lugares institucionais, foram transformando a Região. Tal não significa que todos devessem ser distinguidos. Apenas comprova que uma celebração dos 50 anos talvez justificasse uma representação ainda mais plural, à imagem da transversalidade existente na construção da Madeira autonómica.
A grande questão, portanto, não é saber quem merece mais. É perceber se a lista de distinguidos conta toda a história da Autonomia ou apenas uma parte.
Mas há ainda outra reflexão que a sucessão de medalhas, em terra pequena de alguma mesquinhez e inveja, inevitavelmente suscita. Num só ano há distinções no 10 de Junho, no primeiro de Julho, nos dias dos municípios, na Assembleia Legislativa, no Dia Mundial do Turismo e em inúmeras outras ocasiões. Cada entidade terá os seus critérios e as suas razões. É tudo legítimo e razoável, mesmo que, por coincidência, alguns notáveis e justos merecedores de prémios possam levar para casa quatro ou cinco medalhas no mesmo ano.
E aqui reside o problema das insígnias oficiais e dos gestos insignificantes, aos quais os contemplados são totalmente alheios. As condecorações, quando se tornam demasiado frequentes, correm o risco de perder a capacidade de distinguir. Ora, uma insígnia vale pela sua raridade, pelo momento em que é atribuída e pelo significado excepcional que a sociedade lhe reconhece. Logo, mais do que questionar se há demasiadas homenagens, convém avaliar se conseguimos preservar o significado de cada uma.
As insígnias dos 50 anos de Autonomia deveriam ser, por natureza, uma distinção extraordinária. Não apenas porque assinalam uma efeméride irrepetível, mas porque deveriam ficar como uma memória de quem, aos olhos da Região, ajudou a construir estes primeiros 50 anos.
Por isso, mais do que dissertar sobre nomes indiscutíveis que motivam orgulho, talvez valha a pena olhar para quem ficou nas margens. Não para reclamar medalhas. Mas para perguntar que Região estamos a escolher para recordar. Mesmo sabendo que a distinção que se banaliza deixa de distinguir, e começa, ironicamente, a tornar-se insignificante.