Rui Barreto nasceu no ano de 1976, o mesmo em que a Constituição que consagrou a Autonomia foi aprovada e consagrou as autonomias regionais. Aderiu ao CDS ainda na faculdade, foi vereador, deputado e chegou a liderar o partido.
Foi com ele que o CDS chegou ao Governo Regional, em 2019, na primeira coligação, na Região. É ele o convidado do podcast ‘Rostos da Autonomia’ (https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/
Rui Barreto nasceu no Funchal mas teve a infância passada em vários conmcelhos.
“Os 50 anos da Autonomia também são os meus 50 anos de vida. A minha infância foi muito rica em experiências. Eu vivi, até aos sete anos, na freguesia dos Canhas, na Ponta do Sol porque era lá que os meus pais estavam a trabalhar. Depois faço uma incursão mais a norte, vou para o Arco de São Jorge, uma freguesia do concelho de Santana, onde completei o primeiro ciclo do ensino primário, ainda fiz o 5º ano em São Vicente. Depois é que venho residir para o Funchal e foi aí que completei os estudos”, recorda.
Uma infância em que contactou com a realidade de uma Região onde faltava muita coisa e acompanhou a mudança.
“Nós começamos a ter mais consciência da nossa vida a partir dos 10 anos e isso coincide, precisamente, com a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, em 1986. Nós não tínhamos vias-rápidas e eu, para ir do Arco de São Jorge para São Vicente demorava para aí quase uma hora e meia, todos os dias. Tinha de apanhar um autocarro às 6h30 para entrar às 8h00. Depois caíam derrocadas que impossibilitavam a viagem… hoje são duas localidades que até estão perto mas naquele tempo não estavam”.
Com a entrada de Portugal na União Europeia deu-se um avanço muito significativo e, lembra, “sentia-se que, apesar de ser una ilha não muito extensa, as acessibilidades eram um factor de condicionamento ao desenvolvimento e qualidade de vida. As redes viárias, as escolas, os centros de saúde, todo um conjunto de infraestruturas que foram sendo realizadas, e eu fui acompanhando esse percurso, permitiram um desenvolvimento integral, social, económico e territorial do nosso arquipélago”.
A experiência de viver a oeste, depois a norte e depois a sul e perceber as dificuldades foi importante.
“Não fui um menino da cidade, o meu avô era viticultor e muitas vezes pisei uvas. As nossas experiências moldam-nos e são importantes para a política”.
Licenciou-se em Gestão de Empresas pelo ISLA e começou a trabalhar. “Criei a minha primeira empresa, fui um empreendedor, em 1999 e depois fui trabalhando em várias entidades, como consultor. Em projectos na ACIF, na Empresa de Electricidade da Madeira”. EEM onde regressou depois de passar pela política.
Porquê o CDS?
“Porque sempre me situei ideologicamente como um personalista, conservador nos costumes e também um liberal na economia e o partido, a casa onde me sentia mais confortável, numa matriz democrata-cristã, com uma visão que com a iniciativa privada podemos criar riqueza e redistribuí-la para aproximar as classes sociais, foi o móbil para o enquadramento no CDS”, responde.
Ainda são esses os valores de direita?
“Acho que o perímetro foi-se alterando ao longo dos tempos. Houve causas, como a causa da Autonomia em que o CDS também foi um partido autonómico, as causas da defesa dos nossos valores, da iniciativa, mas depois apareceram um conjunto de outros temas que se foram diluindo em todos os partidos. A partir do momento em que se conseguiu conquistar a Autonomia, a adesão à unidade económica e monetária, melhoramento das condições económicas e sociais, foi preciso encontrar novos objectivos e julgo que houve um adormecimento no panorama político. (…) lideres menos mediáticos. Faltam novas causas e julgo que hoje até estamos num momento em que o discurso é muito binário, preto ou branco. E isso até vemos nas conversas entre os nossos amigos nos restaurantes. Já não há moderados e eu encontro-me no espaço da moderação”.
Rui Barreto entrou para o CDS e o primeiro cargo que exerceu foi de vereador na Câmara do Funchal, em 2010, em regime de substituição, na altura em que o actual presidente do Governo, Miguel Albuquerque, era presidente da câmara.
“Gostei de ter sido vereador, é um mandato muito próximo das pessoas, nas visitas que fiz às freguesias, nos contactos que mantinha”.
Um desempenho que levou a que lhe fosse feito o convite para integrar as listas do CDS para o parlamento regional e para a Assembleia da República.
“Entrei na Assembleia da República, numa votação muito importante, a do Orçamento de Estado para 2012. Fui substituir o deputado José Manuel Rodrigues. Consegui a minha primeira medalha que foi votar contra o orçamento de Estado da AD que governou entre 2011 e 2015. Fui o primeiro deputado na história da Autonomia e creio que o único até hoje que, integrando uma maioria que suportava um governo, votou contra um orçamento e por duas vezes porque também votei contra o de 2013. Fi-lo de forma absolutamente consciente e livre”.
Teve um processo disciplinar no partido, mas não foi isso que o fez mudar de posição.
“Nessa altura o CDS tinha 24 deputados e eu transmiti ao líder do partido, o dr. Paulo Portas que iria votar contra porque aquilo que tínhamos dito na campanha não batia certo com o que estava a ser apresentado. Considerava na altura que a Madeira estava a ser fortemente punida por uma dupla austeridade, porque estávamos a aplicar o Plano de Ajustamento Económico e Financeiro nacional a que se adicionava o plano regional. Havia um ambiente de punição em relação à Madeira”.
Uma ‘medalha’ que lhe deu estatuto dentro do partido na Região
“Ganhei visibilidade, sim, mas também fui penalizado por isso porque em política um certo seguidismo também é premiado”.
Em 2018 é eleito líder do CDS e leva o partido às eleições de 2019, particularmente difíceis, mas que iriam acabar bem para os centristas.
“Em 2018 o partido reuniu-se em torno da minha liderança e conseguiu fazer uma campanha motivadora. Perdemos deputados devido à turbulência no partido, saiu um líder, entrou outro de transição e depois entrei eu e o eleitorado não percebeu algumas dessas alterações. Depois, houve um fenómeno que não deixa de ser interessante, em 2013 o PS ganha a câmara do Funchal e o PSD perde a maioria das câmaras e em 2019 o presidente da câmara do Funchal, Paulo Cafôfo concorre”, lembra.
Contados os mandatos, o PSD perde a maioria absoluta e faz uma coligação de governo com o CDS, a primeira desde a consagração da Autonomia.
“Tiveo privilégio de ter feito o primeiro acordo de coligação na história da Autonomia e ter conseguido uma coisa muito importante que é, apesar das diferenças partidárias, durante anos e décadas, conseguimos um compromisso em nome de um valor maior, Madeira e dos madeirenses”.
Um processo que chegou a ser questionado por uma possibilidade de ‘geringonça’, um acordo com o PS, o segundo partido mais votado.
“Obviamente que os resultados dessas eleições ditaram quadro assimétrico porque o CDS, tendo três deputados, poderia formar uma coligação com o PSD, mas também poderia fazer uma entendimento com o PS”, explica.
No entanto, assegura que nunca esteve em causa um acordo à esquerda.
“Para mim essa questão não se colocou, por muito que muitos desejassem, por muito que o PS previsse que o CDS o levasse à liderança do governo. Esse assunto, para mim, nunca existiu, na justa medida em que fui muito claro no congresso de 2017 e disse que o meu objectivo era levar o CDS ao governo, porque a boa oposição merecia essa oportunidade, mas disse que respeitaria a vontade maioritária do povo e que não trairia o espaço ideológico a que pertencia. (…) houve pressões, ao mais alto nível do PS, para formar um governo à esquerda, mas nunca faria uma coisa que era negociar em dois tabuleiros. Como disse na altura, isto não é um bazar de Marraquexe”.
Barreto aceitou o convite de Albuquerque e formaram um governo, com o CDS a ter duas secretarias regionais e a presidência do parlamento.
“Disse, no partido, que a partir daquele momento o mais importante era o governo, a nossa governação e a vida dos madeirenses e em segundo lugar os militantes por quem tenho muito respeito. Mas temos de escolher um bem maior”.
Um início de coligação que teve o episódio da presidência da Assembleia, exigida por José Manuel Rodrigues e que poderia colocar em risco o acordo.
“Penso que não esteve em risco porque colocámos um interesse maior à frente e imperou o bom senso. Quando estamos numa posição destas, percebendo que há pessoas que querem exercer determinados cargos, precisamos de estabilidade para iniciar funções”.
Menos de cinco meses depois da tomada de posse o governo regional tem de lidar com a pandemia de Covid-19 e, diz Rui Barreto, “esse facto adverso, quase tenebroso, potenciou a coesão no governo. Nem se notava que era um governo de dois partidos”.
Em 2023, PSD e CDS vão juntos às eleições e falham a maioria absoluta por um deputado, quando tudo apontava para uma vitória folgada. A solução foi um acordo parlamentar com o PAN.
Depois, em Janeiro de 2024 há um terramoto político, com a operação do Ministério Público e da PJ que atinge a cúpula do PSD.
“Foi uma situação que nos apanhou a todos de surpresa. Altamente stressante e que mereceria que estivéssemos mais juntos. Houve perturbações dentro da coligação, embora eu tenha mantido a confiança no dr. Miguel Albuquerque, nunca retirei esse apoio”.
Albuquerque entende que tem de se ligitimar, “muito acossado pelo dr. Manuel António”, e vai votos no PSD e Rui Barreto também decide convocar um congresso.
“Sou confrontado com uma decisão, porque foi-me transmitido que a coligação findava e os partidos iam sozinhos a votos. Percebo que numa disputa tão apertada no PSD seja mais fácil dizer ao militante que o partido vai sozinho nas eleições. Se vou a votos não posso continuar no conselho de Governo até ao fim e depois apresentar-me ao eleitorado como se fosse um partido independente. Ou saio do governo e apresento-me novamente a eleições ou, e foi essa a opção, fico no governo, convoco um congresso e passo a alguém que assegure a liderança”, explica.
Depois de quase cinco anos a trabalhar com o Miguel Albuquerque e o governo ter funcionado bem, Barreto não aceita fazer um “joguinho de simulação” e não se recandidata.
“Saí bem da política e tenho o gosto de ter saído pelo meu pé, como entrei”.
O que foi melhor e pior na autonomia?
“Estes primeiros 50 anos são de construção da Autonomia. Os próximos 50 anos são o um novo desafio, da afirmação da maturidade da nossa autonomia. Para isso, vamos precisar que os lideres dos partidos deixem as suas querelas e a sua mesquinhez e visão paroquial dos seus partidos e colocarem a autonomia em primeiro lugar. Porque se nem sequer nos conseguimos entender, na Madeira e nos Açores, desculpem mas não temos hipótese, ao nível nacional, de avançar. Conseguimos a consagração a autonomia, temos poder, temos uma lei das finanças, fomos alimentando um contencioso que alimentou a nossa auto-estima de sermos madeirenses, mas e agora o que fazemos? Estes 50 anos não servem só para celebrar, têm de servir para pensar os próximos 50. Temos de encontrar pessoas, sejam de que espectro forem, autonomistas. Escolher pessoas certas para dialogarem com os diferentes partidos para nos entendermos sobre o modelo de autonomia que queremos para o futuro. Conseguir que governo central, ao fim de 50 anos, deixe de olhar para a Madeira e para os Açores como uns enteados e deixar que tenhamos a capacidade de escolhermos o que é melhor para nós".
Quando volta à política activa?
“Estou a fazer uma pausa, não estou, nem pouco mais ou menos, tentado a isso. Estou tranquilo, faço coisas de que gosto muito. Confesso que à vida partidária não tenciono voltar, à vida pública dependerá de muitas coisas. A vida é uma paleta de cores, é importante não fazer durante muito tempo a mesma coisa, mas fazermos coisas diferentes”.