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Medalhas não pagam contas

A discussão na Assembleia Legislativa da Madeira sobre a criação de uma Medalha de Mérito de Emergência e Proteção Civil expôs uma contradição: quase todos concordam que é justo reconhecer quem protege e salva vidas. Mas, enquanto se discutem distinções, continuam por resolver problemas de quem veste uma farda e entrega a sua vida para salvar a do outro. Há atos de coragem e altruísmo que merecem ser assinalados, com critérios claros. O problema começa quando o debate político dá mais destaque à condecoração do que às condições em que estes profissionais trabalham e vivem.

Uma medalha não paga a prestação da casa, não enche o frigorífico, não paga a eletricidade nem compensa o tempo longe da família. Também não substitui salários dignos, carreiras valorizadas, descanso, equipamentos adequados, instalações seguras ou proteção perante o risco. Não resolve atrasos salariais, progressões tardias ou falta de meios.

No debate foram levantadas questões que deviam estar no centro das prioridades: remunerações justas, suplemento de risco, subsídio de insularidade, transparência no financiamento das associações humanitárias, instalações degradadas e meios de combate a incêndios disponíveis a tempo. São estes os assuntos que pesam no quotidiano dos agentes e na segurança coletiva.

É absurdo gastar tanto tempo político a discutir uma medalha, quando tantos profissionais enfrentam dificuldades reais para cumprir uma missão essencial. A proteção civil não funciona à base de discursos, fotografias e insígnias. Funciona com pessoas preparadas, justamente remuneradas, equipadas e respeitadas, com prevenção e meios antes da tragédia.

O reconhecimento não deve ficar reservado às instituições ou a nomes escolhidos por critérios pouco claros. Quem arrisca a vida para salvar outra pessoa — bombeiro, profissional de saúde, elemento de uma força de segurança ou cidadão comum — merece consideração. Mas esta tem de ser transparente e traduzida em decisões concretas.

A Assembleia pode aprovar a medalha, mas não deve confundir esse gesto com o cumprimento da sua obrigação. Se os deputados querem homenagear os agentes, comecem por garantir que trabalham em segurança, recebem a tempo e vivem com dignidade. A medalha pode ficar ao peito; o reconhecimento verdadeiro tem de chegar à carteira, ao quartel e ao terreno.

Menos cerimónia e mais ação. Mais condições, investimento e respeito por quem arrisca a vida pelos outros. A coragem merece uma medalha, sim — mas quem salva vidas também precisa de pagar as contas e pôr comida na mesa.