O mercado somos nós
Ao ouvir certas conversas e discursos políticos, parece que o mercado se reúne às escondidas para decidir quanto sofrimento cabe no preço do pão ou da gasolina. Dizem que exige, ameaça e castiga, usando a palavra como culpado conveniente para evitar explicar quem fez o quê e porquê. Há políticos que falam dele com solenidade e com a certeza de que poucos perguntarão. Ouviram dizer que o mercado existia e acharam isso suficiente para uma carreira; o cargo, o motorista e o microfone deram autoridade à ignorância.
Quem compra pão, procura emprego, vende um carro, chama o canalizador, procura casa ou compara o preço dos tomates, participa no mercado. Até desistir de uma compra ou deixar um produto na prateleira conta. Esta evidência inclui-nos na fotografia, com as nossas conveniências e a carteira, contrariando a explicação cómoda de que os responsáveis são sempre outros, ricos e vagos. O mercado resulta das relações entre procura e oferta, das escolhas, trocas e conflitos, e das condições em que ocorrem. Estamos lá, de saco na mão e indignação pronta para quando chegarmos a casa.
Para perceber para que serve, seria preciso aceitar uma limitação tão elementar que quase ofende escrevê-la: ninguém sabe tudo, nem sequer um secretário regional depois de anunciar três fundos e distribuir cheques numa Casa do Povo, rodeado de agradecimentos enquanto alguém verifica se o símbolo do Governo ficou bem na fotografia. Ninguém conhece todas as necessidades, todos os recursos e todas as possibilidades de produção, por muito que a mesa de honra na visita à Tasca do Bexiga sugira o contrário. A informação encontra-se dispersa: cada pessoa conhece uma parte; sabe o que lhe falta, o que pode gastar, o que consegue fazer, e os preços e as trocas ajudam a coordenar as decisões de pessoas que nunca se encontrarão. Um preço pode transmitir informação sobre procura, disponibilidade e custos, pode reflectir poder de mercado e exige que se interpretem as condições em que surgiu. Mas interpretar dá trabalho, uma actividade pouco premiada em cerimónias públicas cheias de declarações vazias, onde o pensamento deve ser breve para não atrasar o almoço.
Se a procura aumenta e a oferta não acompanha, o preço tende a subir, e essa subida pode incentivar mais produção, atrair concorrentes ou levar consumidores a procurar alternativas. Pode, porque entre a frase e a realidade há terrenos, licenças, dinheiro, trabalhadores e tempo, esse tempo que os governantes julgam abreviar anunciando urgências diante de uma câmara. Uma casa precisa de terreno, projecto, licenciamento, materiais, financiamento e gente que a construa; um profissional precisa de formação; uma empresa precisa de entrar num sector onde talvez encontre a porta ocupada por quem chegou primeiro e aprendeu a conservar a chave. Nada disto aparece porque alguém franziu a testa e declarou que “é preciso dar uma resposta”, aquela frase que cabe em qualquer problema e o deixa praticamente no mesmo sítio. A resposta depende das condições concretas. E quem repete “oferta e procura” sem compreender os obstáculos continua a recitar uma lição, ainda que a recite com o ar grave de quem está a salvar o país.
Também convém olhar para a facilidade com que o interesse dos empresários passa a ser interesse do mercado, sobretudo quando a confusão vem acompanhada de um almoço ou daqueles encontros em que se fala muito em criar riqueza e se acaba discutindo quem recebe o apoio. Um empresário pode querer concorrência, inovação e clientes satisfeitos; pode querer um subsídio, uma autorização exclusiva e uma lei engenhosa que deixe os concorrentes à porta, à chuva, a preencher requerimentos. Ambas as possibilidades pertencem à condição humana, e seria prudente distingui-las antes de pendurar medalhas na iniciativa privada. Quem pede protecção permanente contra a concorrência pede um privilégio; quem pretende que o contribuinte cubra os seus erros apresenta-lhe a factura, explicando delicadamente que o pagamento é pelo bem de todos. O fato assenta bem, os sapatos brilham, “empreendedorismo” aparece seis vezes por minuto, mas, por baixo daquela elegância, há uma mão estendida, treinada para receber sem parecer que pede.
Nós, os restantes, também acomodamos os princípios à cadeira em que estamos sentados, e basta mudar de lugar para descobrir convicções que ontem nos pareciam absurdas. Queremos comprar barato e vender caro; queremos salários melhores e serviços mais baratos, mesmo quando esses serviços dependem de pessoas que também chegam a casa com contas para pagar. Ao vender uma casa, enumeramos as virtudes da valorização imobiliária, a luz, a vista, o futuro do bairro; ao procurar casa, perguntamos que espécie de gente exige semelhante dinheiro por quatro paredes. Estas diferenças são normais, e muitas encontram acordo através de trocas voluntárias, embora a liberdade efectiva dependa das alternativas disponíveis. Quem tem cinco propostas de emprego pode escolher, recusar, negociar; quem tem uma proposta e a renda a vencer faz contas com outro aperto no estômago. É preciso compreender essa diferença. Também é preciso juízo para não transformar a dificuldade de uma pessoa numa licença para abolir as escolhas das restantes.
Uma defesa séria do mercado exige reconhecer os seus limites, com a mesma atenção que se exige a quem pretende corrigi-los. Há monopólios, informação desigual, danos ambientais cujo custo chega à casa dos outros, necessidades que persistem sem dinheiro que lhes corresponda. Uma pessoa pode precisar desesperadamente de um medicamento e não ter como pagá-lo; pode sair da farmácia com a receita dobrada no bolso e a doença inteira dentro do corpo. A necessidade continua ali, e uma sociedade decente tem de responder com instituições, serviços e protecção social que funcionem, que cheguem a tempo, que não obriguem o sofrimento a preencher um formulário para provar que existe. Defender a concorrência exige justiça, regras e fiscalização; exige impedir que alguns fiquem com as vantagens e deixem aos restantes os estragos. Tudo pede competência, essa qualidade discreta que produz menos imagens do que um governante indignado, de dedo no ar, a prometer rigor a uma assistência que já aprendeu a reconhecer a duração das promessas.
Chegamos assim aos políticos que enchem a boca com o mercado e deixam o pensamento a definhar algures, sem alimento nem visitas. Uns usam a palavra para absolver qualquer resultado: aconteceu e, portanto, deve estar bem; outros, para condenar qualquer dificuldade: aconteceu e, portanto, foi o mercado, poupando-se ambos da investigação que poderia perturbar a comodidade da conclusão. Não distinguem concorrência de cartel, escassez de abuso, lucro de favorecimento, embora pronunciem os termos com uma convicção que faria pensar em anos de estudo. Há ainda os que levantam barreiras, distribuem privilégios, dificultam a entrada de concorrentes e depois aparecem a lamentar os preços, ofendidos na aparência, como se tivessem acabado de chegar e encontrado o estrago. A sua intervenção desaparece da narrativa; os despachos perdem autoridade, as decisões ficam órfãs. E lá estão eles, com impressões digitais por todo o lado, a prestar declarações na condição confortável de testemunhas.
Quando um governante promete baixar preços, quero saber como, e talvez esta pergunta lhe cause mais embaraço do que um discurso inteiro da oposição. Vai aumentar a oferta, facilitar a concorrência, reduzir custos dependentes das suas decisões, fiscalizar práticas ilegais, apoiar quem tem menos rendimento? Ou espera que a promessa dure até ao fim do noticiário e se dissolva entre o futebol e o tempo para amanhã? Fixar um preço abaixo do necessário para assegurar a oferta, sem cobrir custos ou compensar a diferença, pode reduzir a disponibilidade e a qualidade; subsidiar a procura quando a oferta mal consegue crescer pode contribuir para aumentar os preços. Há mecanismos, consequências e pessoas que pagarão pelo erro depois da cerimónia terminar. A bondade proclamada pelo autor interessa-me pouco perante isso. O contribuinte já lhe paga o ordenado e tem despesas suficientes em casa para lhe custear também a santidade.
Quando alguém promete “obrigar o mercado”, deve explicar quem produzirá o quê, com quais recursos, custos e riscos. Talvez, então, baixe a voz ou adie a resposta a assessores e grupos de trabalho. O Estado pode impor obrigações, financiar serviços e estabelecer limites, mas deve esclarecer quem cumpre, quem beneficia e quem paga. Se não sabe, devia estudar antes de legislar, por mais que o cargo, o gabinete e a cadeira confirmem a sua importância. Falta compreender o assunto, e mobiliário novo não resolve isso.
Antes de condenar ou glorificar o mercado, os nossos profissionais da certeza deviam identificar participantes, incentivos, obstáculos e efeitos das medidas, em vez de procurar logo uma frase para o jornalista. Todos participamos nesta rede de decisões, até quem denuncia o mercado ao jantar e depois compara preços no telemóvel para poupar cinco euros. Quanto ao cidadão comum, admito desconhecimento: tem a vida, o trabalho e pouco tempo para estudar tudo. Ao político que decide sobre o trabalho, o rendimento e as escolhas alheias, exijo preparação. É pago, tem meios e pede confiança para isso. Antes de falar, devia perceber quanto nos pode custar. A ignorância já é cara quando é gratuita.