Ajoelhados perante egos
Há uma obsessão profundamente reveladora numa semana em que uma carta de Cristiano Ronaldo consegue eclipsar quase tudo o resto, que é muito. O futebolista madeirense pediu desculpa por ter abandonado a Selecção, assumiu que aceita as consequências da sua decisão, mas aproveitou o comunicado para acusar Jorge Jesus de uma “absoluta quebra de confiança”. O ‘mea culpa’ implicou novas explicações, meteu a Federação ao barulho, mas não encerrou a polémica. Pelo contrário, deu-lhe novo fôlego e prolongou um confronto em que cada palavra parece valer tanto pela mensagem como pelo efeito que produz.
O direito de Ronaldo a explicar-se e o de Jesus a defender as suas decisões não são questionáveis. O drama nacional acentua-se quando divergências que deveriam ser resolvidas no seio em que nasceram, com frontalidade, transparência e sentido de responsabilidade, se transformam em disputas públicas de autoridade. Quando a palavra dada se converte em arma de arremesso, a confiança em moeda de troca e cada declaração numa tentativa de impor a própria versão, a comunicação deixa de esclarecer e passa a alimentar o conflito. A verdade, entretanto, fica suspensa entre versões incompatíveis, acusações e interpretações.
É uma cultura de protagonismo que não se esgota no futebol. Dois homens habituados a ocupar o centro do palco parecem incapazes de retirar o ego da equação e colocar o essencial acima das susceptibilidades individuais. Ronaldo tem um peso histórico incontornável, mas não é maior do que a Selecção. Jesus tem autoridade para decidir, mas o poder, por mais relevante que seja, não o dispensa de coerência e transparência. E a Federação não pode limitar-se a gerir sensibilidades, esperar que a tempestade passe ou tratar o caso como mais um episódio de comunicação. Já agiu mas tinha de garantir desde bem cedo que as regras são claras e aplicadas sem reverência pelo currículo, pela popularidade ou pelo poder de quem está envolvido.
O mais extraordinário e intrigante é a dimensão que esta disputa alcança num País e numa Região com problemas verdadeiramente urgentes para resolver. Só na última semana, numa Autonomia acusada de manter a mão estendida e marcada pela hipocrisia política, mostrámos o que alguns preferem esconder. Há estudantes madeirenses confrontados com quartos que podem ultrapassar os mil euros mensais em Lisboa, doentes afectados por paralisações nos serviços de saúde e pessoas sem-abrigo a vasculhar o lixo à procura de embalagens que lhes rendam dez cêntimos. São problemas que, a par de muitos outros, não se resolvem com alucinações orçamentais, comunicados redentores ou trocas de acusações. Exigem decisões, recursos, políticas consequentes e escrutínio persistente.
É escusado pedir aos media que ignorem Cristiano Ronaldo. O melhor de sempre ocupa um lugar na agenda mediática por mérito próprio. E não se finja que o futebol é um assunto menor para milhões de portugueses. O que se lamenta é a desproporção na abordagem, mas, acima de tudo, no comentário, como se nada mais houvesse para discutir.
Uma disputa entre duas figuras mediáticas tem todos os ingredientes para dominar a agenda. Protagonistas reconhecidos, frases contundentes, suspeitas de traição, versões contraditórias e a expectativa de um próximo capítulo: é o sonho de qualquer agente do sensacionalismo declarado. A habitação, a saúde ou a pobreza não oferecem o mesmo espectáculo. Exigem contexto, persistência e atenção para lá do ciclo imediato da polémica. E fazem-se também de rostos que a multidão nunca viu. Assim, quase sem darmos por isso, o ruído conquista espaço ao essencial.
Alguns meios de comunicação social têm responsabilidades nesta hierarquia de atenções. Mas não são os únicos, sobretudo num ecossistema em que também o público alimenta o espectáculo, multiplicando reacções, tomando partido e aguardando a próxima declaração como se estivesse perante uma final que alguém terá de ganhar. O conflito torna-se entretenimento, a indignação transforma-se em consumo e a discussão sobre as responsabilidades cede lugar à contabilidade dos egos feridos. Entretanto, os problemas que condicionam a vida de milhares de pessoas continuam à espera de protagonistas, de atenção e, sobretudo, de soluções.
Ronaldo e Jesus têm agora a oportunidade de demonstrar que a dimensão de uma figura pública não se mede apenas pela capacidade de mobilizar atenções, mas também pela maturidade para reconhecer limites, esclarecer factos e colocar os interesses colectivos acima das susceptibilidades individuais. À Federação cabe assegurar sempre e sem demoras que nenhuma individualidade se sobrepõe à instituição. À comunicação social e à sociedade cabe não confundir relevância com omnipresença, nem espectáculo com prioridade.
O problema não é termos figuras acima da média. É permitirmos que os seus egos se tornem maiores do que os quase eternos dramas de um povo.
A história mostra que, quando alguns veneram sem lucidez heróis circunstanciais, acabam submissos perante figuras que, por maiores que sejam no palco das notícias, pouco ou nada contribuem para a resolução dos problemas colectivos. E nenhum País se torna maior por se ajoelhar perante os seus ídolos.