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A consciência moral desta Região

Final de verão de 1992, tinha terminado o serviço militar há meia dúzia de semanas e voltava à minha rotina na ilha e às minhas funções docentes como professor de Educação Física no 1.º ciclo (na altura chamados Coordenadores Concelhios).

No final da reunião preparatória do início do ano escolar sai o desafio da boca de Duarte Azevedo, meu colega docente e à data editor de desporto do DIÁRIO de Notícias: “Saturnino, queres colaborar com o DIÁRIO e fazer crónicas de jogos de futebol?”

Fui apanhado de surpresa, mas nem foi preciso pensar muito, pois tratava-se de juntar duas das minhas grandes paixões: o jornalismo e o futebol.

Desafio aceite, dava-se assim início a uma ligação de 17 anos, com várias etapas e muitos, muitos capítulos.

Na área desportiva, mas não só, pois entre 1996 e 2002 além do desporto era também correspondente local, primeiro em Santa Cruz, depois também em Machico.

A partir de 2002 a colaboração fez-se noutros moldes, já no quadro dos jornalistas de desporto e a fazer parte de uma ‘dream team’ que produzia diariamente um suplemento, por vezes com mais páginas do que o próprio DIÁRIO.

Mas sempre em acumulação com as minhas funções docentes, o que representava muitas horas de trabalho diário, saindo cedo de casa para a escola e chegando a casa tarde e a más horas do DIÁRIO, especialmente em dias de fecho.

Em prejuízo da família, pois muitas vezes os filhos só os via a dormir, os sábados, domingo e feriados eram frequentemente passados na redação ou num qualquer campo do país, pois a notícia é notícia quando acontece e nós tínhamos de lá estar para a dar. O que me valeu foi uma esposa tolerante e compreensiva, que percebeu e respeitou desde o primeiro momento a força da minha paixão pelo jornalismo.

Momentos marcantes foram muitos, nem todos positivos.

O pior, talvez, foi no dia em que ao acordar fui passar os olhos na edição do dia e logo me saltou à vista um erro numa das chamadas da primeira página. Por mim lida e relida na véspera antes de enviar para a impressão sem que a falta de uma letra tivesse sido detetada.

O melhor… nem sei qual escolher. Marcante, pela riqueza da aprendizagem, a viagem à Arábia Saudita para acompanhar a presença do Marítimo na Al-Faisal Cup em 2002. Marcante, pela importância do momento, a cobertura do jogo de estreia do CD Nacional nas competições europeias em Sevilha, dois anos depois.

Mas muitos outros eventos podiam fazer parte desta lista, pois durante esses 17 anos tive o privilégio de estar presente em muitos dos mais importantes momentos do desporto madeirense (futebol e não só), tentando levar aos nossos leitores de forma fiel, isenta e imparcial o relato de cada um desses acontecimentos.

Porque para nós, jornalistas daquela casa, mais do que uma profissão, trabalhar no DIÁRIO era acima de tudo uma causa e uma responsabilidade. “Se aconteceu, vem no DIÁRIO. Se vem no DIÁRIO, é verdade!”

Sentíamo-nos muitas vezes uma espécie de consciência moral de toda uma Região, e era também isso que nos dava força, alento e coragem para dia a dia vestirmos a camisola do DIÁRIO com orgulho e responsabilidade.

Os anos passaram e em 2009 a crise levou a uma primeira vaga de despedimentos.

Os primeiros a sair foram os professores, uma decisão racional e perfeitamente compreensível, pois estes tinham outra fonte de subsistência para além do jornalismo, e assim a minha ligação profissional a esta casa terminou no final de julho desse ano.

Saí da mesma forma que entrei. A bem com todos, deixando naquela casa grandes amizades que ainda hoje prevalecem. E com o orgulho de ter feito parte de um projeto que deixou marca numa Região. Talvez por isso, no momento em que atravessei aquela porta pela última vez, chorei. Chorei de tristeza pelo final de um ciclo que apesar de ter sido muito exigente e trabalhoso, me fez imensamente feliz.

Quase vinte anos depois o DIÁRIO continua a fazer parte da minha vida, mas agora como leitor e, de forma muito pontual, como colaborador em artigos de opinião.

Mas mesmo com os 150 anos cumpridos, e por isso com desafios diferentes, a matriz do nosso DIÁRIO não pode mudar. “Se aconteceu, vem no DIÁRIO. Se vem no DIÁRIO, é verdade!” Só assim fará sentido dar continuidade ao projeto, pois mais do que dar notícias, continua(mos) a ter a responsabilidade de ser a consciência moral desta Região.