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Ainda há espaço para sermos humanos?

Estamos a perder aos poucos a capacidade de nos reconhecermos uns aos outros enquanto pessoas, e a normalidade com que aceitamos isso perturba-me imenso. Basta ler comentários para perceber que deixámos de discutir apenas ideias sobre a terra onde vivemos. Julgamos pessoas que não conhecemos e reduzimos vidas inteiras a uma frase ou opinião. Transformamos pessoas em categorias, como o imigrante, o político, a rica, o pobre, a diferente, o inimigo… E, depois de o fazermos, torna-se mais fácil desprezá-la e justificar aquilo contra ela que nunca aceitaríamos para nós.

Os discursos de ódio grassam nas redes sociais a uma velocidade e com uma dimensão difíceis de ignorar – e a Madeira não está imune. Talvez seja demasiado fácil culpar os algoritmos, os políticos ou os anónimos da internet. Nós também participamos, e temos de assumir essa responsabilidade. Participamos quando partilhamos algo apenas para indignar, fazemos circular acusações sem verificar a sua veracidade ou confundimos sinceridade com crueldade. Há uma diferença enorme entre ter voz e usar a voz para ferir.

Engane-se quem pensa que a desumanização começa apenas nos atos extremos. Não. Começa nas ofensas que banalizamos, nas piadas que desculpamos, no desprezo que normalizamos e no silêncio com que assistimos a barbaridades. Quando aceitamos que uma pessoa seja tratada como menos humana, abrimos espaço para que os seus direitos sejam postos em causa.

Os direitos humanos não podem depender dos sentimentos que temos por outras pessoas. A igualdade não significa sermos iguais, mas sim reconhecer que a dignidade de cada pessoa não diminui por causa da sua origem, género, orientação sexual, condição económica, religião, aparência ou convicções. Podemos discordar profundamente, não gostar de uma pessoa, denunciar injustiças, estabelecer limites e dizer não. Mas devemos voltar a aprender a fazê-lo sem negar à outra pessoa a mesma humanidade e os mesmos direitos que reivindicamos para nós.

E esta reflexão tem, para mim, um peso particular na Madeira. Vivemos numa ilha. Uma terra pequena, mas onde se cruzam muitas histórias, culturas, gerações e formas diferentes de olhar para a vida. Encontramo-nos na rua, no trabalho, nas escolas, nos cafés e quase sempre existe uma ligação entre nós que desconhecemos. Talvez seja essa uma das caraterísticas de viver numa ilha. Por isso mesmo, a nossa responsabilidade é maior. Aquilo que dizemos sobre alguém não permanece do outro lado de um ecrã. A pessoa que hoje reduzimos a um comentário nefasto pode amanhã estar ao nosso lado. Pode ser nossa vizinha, colega, conhecida... E até pode ser alguém que amamos.

Gostamos de falar da Madeira como uma terra acolhedora e temos razões para nos orgulharmos da beleza, da segurança e da hospitalidade que associamos à nossa ilha e às nossas gentes. Mas uma terra não é apenas a paisagem que mostramos a quem nos visita. É também a forma como tratamos quem cá vive. Nenhuma ilha será verdadeiramente melhor ou mais desenvolvida se perdermos a capacidade de reconhecer alguém na outra pessoa. Alguém que ama, erra, sofre, vence, perde, tem medo e tenta. Todos os dias.

Ainda há espaço para sermos humanos?

Talvez a resposta comece aqui, numa pequena ilha onde, apesar das nossas diferenças, continuamos a encontrar-nos. Porque os direitos humanos não começam nos grandes discursos. Começam na forma como olhamos para quem está ao nosso lado. Não precisamos de gostar ou de concordar com uma pessoa para reconhecer que ela continua a ser uma pessoa.