Dia Mundial da Música: o poder da música em nós
O Dia Mundial da Música celebra-se a 1 de outubro desde 1975, por iniciativa do International Music Council, então presidido pelo violinista Yehudi Menuhin. Na origem da data estava uma ideia que, cinquenta e um anos depois, continua atual: a música podia contribuir para aproximar pessoas, criar maior compreensão entre culturas e ocupar um lugar mais presente na vida das sociedades. Gosto muito da ideia de que um dia dedicado à música tenha nascido não apenas para celebrar os músicos ou as grandes obras, mas sobretudo para lembrar aquilo que a música pode fazer entre as pessoas.
E no nosso quotidiano é frequente haver músicas que nos apanham desprevenidos. Quantas vezes estou no carro ou alguém coloca uma canção que já não ouvíamos há muitos anos e, de repente, viaja até mim uma pessoa, um lugar ou um momento que julgava guardado numa zona distante da minha memória. Tudo isso porque alguém conseguiu dizer, numa canção, aquilo que nós próprios sentimos em determinado momento.
Mas há uma coisa que me fascina ainda mais na música. É o facto de ela não precisar de texto para passar emoções. Podemos ouvir uma peça instrumental que nunca ouvimos, não conhecer o compositor nem saber em que circunstâncias foi escrita e, ainda assim, ela pode tocar-nos de uma forma especial. Nesse aspeto, a música aproxima-se muito das relações humanas. Também entre duas pessoas nem tudo aquilo que importa consegue ser dito, nem é preciso linguagem verbal para se transmitir o que é mais relevante. Podemos passar muito tempo a procurar as palavras certas e, depois, um olhar ou um gesto pequeno pode ter um peso que uma longa explicação não consegue alcançar. Até o silêncio, quando existe verdadeira proximidade entre duas pessoas, pode ser perfeitamente compreendido. Há coisas que comunicamos antes das palavras e outras que talvez nunca consigamos transformar completamente em palavras. A música vive muito nesse espaço e comunica connosco sem nos explicar exatamente aquilo que está a dizer e permite que cada um encontre nela uma parte da sua própria experiência.
Esta consciência do poder da música é muito antiga. Na Grécia Antiga, Platão levou-a bastante longe. Na “República”, quando pensa na educação dos cidadãos, preocupa-se com a música que estes deveriam ouvir e com a forma como ela poderia influenciar o carácter. Considerava que determinadas escalas musicais podiam favorecer atitudes associadas à coragem e à capacidade de enfrentar a adversidade, enquanto outras deveriam ser afastadas por estarem ligadas à lamentação ou a comportamentos que entendia como menos desejáveis. Assim, há mais de dois mil anos já existia a perceção de que a música não passa simplesmente por nós e que tem um grande impacto no nosso estado de espírito.
Também por isso ensinar música nunca pode resumir-se a ensinar alguém a tocar corretamente as notas que estão numa partitura e quanto mais anos estou ligado à música, mais vejo nesta aprendizagem alguma coisa que ultrapassa claramente a sala de aula. Escutar verdadeiramente o outro continua a ser difícil, na música e fora dela.
Um reconhecimento público
Este ano, para o Conservatório – Escola das Artes da Madeira, este dia teve ainda um significado especial. É precisamente no Dia Mundial da Música que tivemos a honra de receber a Insígnia Honorífica dos 50 Anos da Autonomia da Região Autónoma da Madeira. Uma feliz coincidência, visto que o primeiro Governo Regional tomou posse a 1 de outubro de 1976 e a cerimónia da imposição das Insígnias decorre na data exata desses 50 anos.
Receber esta distinção em nome do Conservatório é naturalmente motivo de orgulho, mas uma instituição com oitenta anos não pertence apenas a quem a dirige num determinado momento. Muito menos a sua história se confunde com a história das suas direções. Quando penso nesta distinção, penso sobretudo nas muitas gerações que fizeram esta instituição chegar até aqui.
E penso ainda na relação entre esta distinção e os cinquenta anos da nossa Autonomia. Quando falamos do desenvolvimento da Madeira, pensamos naturalmente nas grandes transformações que a Região viveu durante estas décadas. Mas esse desenvolvimento também pode ser medido pelas oportunidades que uma criança passou a ter, independentemente do concelho onde nasceu, para aprender música, dança ou teatro.
Há por isso uma coincidência particularmente feliz em receber esta distinção no Dia Mundial da Música. Uma insígnia reconhece inevitavelmente aquilo que já foi feito, mas uma escola não pode viver demasiado tempo a contemplar a sua própria história. Todos os anos entram novos alunos que não conheceram nada do que aconteceu antes e que têm apenas uma expectativa muito simples: encontrar alguém que lhes ensine aquilo que ainda não sabem.
Assim, a melhor forma de receber esta distinção é agradecer profundamente a todos os que construíram o caminho que nos trouxe até aqui e perceber que o reconhecimento aumenta a responsabilidade de continuar.
E, no final, tudo volta ao princípio. A uma criança diante de um instrumento pela primeira vez, tentando produzir uma nota que ainda não sai como gostaria. Até ao momento em que percebe que aqueles sons podem dizer alguma coisa que ela ainda não sabe explicar por palavras e acaba sentindo o poder da música em nós.