Especialista na NATO diz que anexação da Gronelândia deixaria aliança paralisada
O especialista e consultor da NATO Manuel Poêjo Torres defendeu hoje que a eventual anexação da Gronelândia, controlada pela Dinamarca, pelos Estados Unidos deixará a organização paralisada, já que os dois Estados são membros da Aliança Atlântica.
O facto de tanto os Estados Unidos como a Dinamarca serem membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte deixará a organização numa posição inédita, caso o Presidente norte-americano, Donald Trump, avance para uma anexação daquele território, indicou à Lusa o especialista.
Apesar de a aliança militar prever que qualquer ataque a um membro implica a ativação do artigo 5º do seu tratado -- que obriga todos os Estados ajudarem o atacado --, este caso deixaria a NATO sem possibilidade de prestar ajuda à Dinamarca.
"A organização não prevê ataques entre membros", sublinhou o perito em Ciência Política, Segurança e Defesa.
"Estamos a falar de um cenário 'horribilis', que nunca aconteceu nem nunca foi previsto, algo que é absolutamente inédito", adiantou, explicando que, perante esta hipótese a NATO não poderia tomar posição.
A ajuda, avançou, teria de partir da União Europeia.
Um caso assim "determinaria a ativação do artigo de Emergência de Defesa Coletiva, previsto no Tratado da União Europeia", referiu Poejo Torres, explicando tratar-se de um artigo "equivalente ao artigo 5º [da NATO]", mas que não pressupõe necessariamente apoio militar.
"O articulado do Tratado da União Europeia [UE] pressupõe uma expressão de apoio que pode ser financeiro, económico, político ou meramente de informação", mas não obriga os Estados-membros a empenharem forças para ajudar o membro agredido, dando-lhes apenas essa possibilidade.
"Isto foi previsto na construção e no desenho do Tratado da União Europeia, precisamente para se poder fazer uma dupla proteção dos interesses dos Estados europeus, que não são necessariamente os mesmos dos Estados da NATO", adiantou, lembrando que a Finlândia e a Suécia não pertenciam à NATO quando aderiram a UE, mas tinham receio do que poderia acontecer na sua fronteira com a Rússia.
Embora admita que este artigo "é muito vago" e mais centrado na diplomacia do que em medidas militares, Poêjo Torres lembrou que "é a única fórmula que possibilita intervenção caso um membro que seja agredido".
Ainda assim, o especialista em defesa e segurança considera que caso a Dinamarca seja atacada, através de uma medida hostil contra a Gronelândia, a Noruega e a Suécia avançarão.
A Dinamarca, a Noruega e a Suécia foram parte da União de Kalmar, um império muito forte do norte da Europa e "eesas raízes históricas não vão possibilitar que estes Estados escandinavos passem ao lado de uma agressão", disse.
Apesar de tudo, Manuel Poêjo Torres reconhece não acreditar que a anexação da Gronelândia se concretize.
"Posso ter de comer estas palavras, mas não acredito que Donald Trump faça uma anexação unilateral da Gronelândia, porque no dia que isso acontecer, acabou o mundo que nós conhecemos", afirmou.
"A ideologia MAGA [Make América Great Again, que sustenta Donald Trump] não tem justificação política para avançar na Gronelândia", defendeu, adiantando que "a argumentação que está a ser utilizada de que a Gronelândia é uma expressão geográfica muito importante para defender os interesses dos Estados Unidos é um pouco vaga", porque "não é apenas a Gronelândia que tem que tem essa expressão, mas é também a ilha da Grã-Bretanha, a península escandinava e também o Canadá".
Trump também "não vai conseguir forçar a Dinamarca a vender [a Gronelândia]", considerou, admitindo que "é capaz de conseguir uma concessão [de petróleo] por ser um negociador que pede tudo e depois se contenta com pouco chamando-lhe uma grande vitória", concluiu.
O Presidente norte-americano reiterou, numa entrevista dada no domingo, querer anexar o território autónomo da Gronelândia, horas depois de um ataque à Venezuela para prender o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher.
Na sequência da operação, Donald Trump anunciou que os EUA vão governar a Venezuela até ser encontrada uma solução para o poder.
Trump afirmou ainda que a Colômbia poderá ser o próximo alvo e referiu que daqui a 20 dias irá "falar sobre a Gronelândia".
"Precisamos da Gronelândia do ponto de vista da segurança nacional", avançou, levando o primeiro-ministro daquela região autónoma, Jens Frederik Nielssen, a afirmar que "basta de pressões e insinuações", sendo acompanhado nas críticas pelos líderes de países como a Dinamarca, a Finlândia, a Noruega, a Suécia ou o Reino Unido.