DNOTICIAS.PT
Eleições Presidenciais País

Gouveia e Melo ouve mensagens cruzadas anti-Ventura e antissistema na Feira do Relógio

None
Foto Lusa

O candidato presidencial Gouveia e Melo foi hoje recebido sobretudo com respeito pela generalidade dos vendedores e clientes da Feira do Relógio, em Lisboa, onde ouviu mensagens cruzadas contra André Ventura, mas, também, contra o sistema democrático.

"Estamos juntos, todos contra André Ventura", gritou um vendedor ao ex-chefe do Estado-Maior da Armada, já quando o almirante se preparava para abandonar a feira, após mais de uma hora de percurso por bancas de vestuário ou de alimentação.

Quando chegou à Feira do Relógio, pelas 10:30, acompanhado de duas dezenas de jovens apoiantes, Henrique Gouveia e Melo também ouviu este mesmo tipo de recado, que pareceu mais comum entre vendedores do que entre os clientes.

"Se não fossem os ciganos, não havia esta feira", disse um homem ao candidato presidencial. Ali perto, uma mulher vendedora, que escutava a conversa, rematou: "Não estamos aqui na feira à borla, pagamos para estar aqui; vou votar em qualquer um menos no racista".

O almirante ouviu também queixas contra a política de imigração. A mais incisiva partiu de um cidadão brasileiro vendedor de pastéis de massa e de caldo de cana: "É preciso respeitar o imigrante, seja do Brasil, seja do Bangladesh ou do Paquistão. Nós trabalhamos e respeitamos a lei".

Mas, na Feira do Relógio, também se conseguiu registar "o outro lado da moeda", ou seja, desabafos muitas vezes impróprios para serem reproduzidos e que assentam na ideia da "palhaçada da democracia" perante o aumento do custo de vida ou da alegada insegurança do quotidiano.

"Pelo menos o senhor almirante não faz parte do sistema. Um sistema que nos rouba", declarou um vendedor de queijos, já depois de um cidadão mais idoso, de forma confusa, se ter atirado ao PSD, PS e PCP. E usou palavras ainda mais duras contra mulheres políticas do Bloco de Esquerda.

Perante comentários antissistema, ou, em sentido inverso, anti-presidente do Chega, Henrique Gouveia e Melo reagiu usando a fórmula de prometer bater-se pela coesão territorial e social do país, defendendo uma ideia de "sentido de comunidade e de união".

"Não há um Portugal a avançar só com metade dos portugueses ou só com 20% dos portugueses, porque isso seria péssimo. Portugal tem de avançar com todos os portugueses e temos de ter uma economia mais próspera, mas com coesão social. Uma economia sem coesão social é um país que mais tarde ou mais cedo torna-se mais inseguro", advertiu.

Como argumento fundamental, o candidato presidencial invocou a forma como atuou quando desempenhou as funções de coordenador do processo de vacinação contra a covid-19.  

"Quando geri o processo de vacinação, não privilegiei ninguém. Criei uma regra muito simples: Primeiro as pessoas mais idosas, as mais frágeis, e daí para baixo sempre vacinar", assinalou.

Mas Gouveia e Melo foi ainda mais longe na sua resposta, contando que, na altura, se criou a dúvida se os imigrantes também deviam ser vacinados contra a covid-19.

"Eu disse claro que sim. Então, não vivem no território nacional? Vamos deixar pessoas não vacinadas no território?", contou, reagindo assim aos comentários sobre imigração e racismo que escutara ao longo do seu percurso pela longa Feira do Relógio.

Um percurso durante o qual não se registou qualquer manifestação de hostilidade contra o ex-chefe do Estado-Maior da Armada. Pelo contrário, foi geralmente bem recebido, teve sempre alguma conversa para responder a todo o estilo de comentários, embora numa ocasião nada tenha dito depois de ter sido elogiado pela forma como travou o debate televisivo com o opositor Luís Marques Mendes.

Enquanto esteve na feira, Gouveia e Melo teve, principalmente, disponibilidade para tirar fotografias ou selfies, sobretudo a pedido de senhoras de todas as idades.

Almirante diz querer ser uma influência positiva para o sistema

O candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo disse hoje querer ser uma influência positiva para o sistema e sublinhou que, tendo em conta o seu passado profissional, poderá ter capacidades que outros candidatos não têm.

Questionado pelos jornalistas se o atual momento de insegurança pode favorecer a sua campanha eleitoral, por ser militar, Gouveia e Melo respondeu que não é uma questão de ser um militar em Belém, mas sim de ter "conhecimentos e capacidades que eventualmente outros não têm".

"A coisa mais importante que os portugueses vão ter de decidir é o perfil do presidente que querem. Qual é o perfil? Quais são as capacidades que desejam ter na presidência? Com que perfil? Com que personalidade? Maneira de estar? Forma de estar? E também passado. Isso é o que os portugueses vão ter que decidir a partir de agora", afirmou, numa visita à Feira do Relógio, em Lisboa.

Gouveia e Melo disse ainda querer fazer uma campanha pela positiva, sentimento que quer manter caso seja eleito nas eleições de 18 de janeiro, afirmando que pretende ser uma influência positiva.

"[...] A presidência não é um lugar executivo, é mais um lugar de influência. Mas pode ser uma influência positiva, pode não ser nada, pode simplesmente não apagar-se, ou pode ser, em casos também extremos, uma influência negativa para o sistema. Eu pretendo ser uma influência positiva", referiu.

No primeiro dia oficial de campanha, Gouveia e Melo reiterou que o seu partido é Portugal e que a sua comissão de honra só podem ser os portugueses: "Eu defendo todos. Eu fui treinado a pensar em Portugal como um todo, não como uma parte, como um grupo".

Relativamente à intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, o candidato mostrou-se preocupado com a situação, mas repetiu que "nenhum país vai conseguir controlar outro" e que já não existem colónias, apelando a que se aguarde com paciência o desenrolar dos acontecimentos.

Gouveia e Melo considera ilegítima intervenção dos EUA na Venezuela

O candidato presidencial Gouveia e Melo considerou hoje ilegítima a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, apesar das dúvidas sobre a democracia do Governo de Caracas, e alertou para os riscos da nova conjuntura internacional.

"Temos de esperar, temos de ser pacientes, não nos precipitarmos. Os Estados Unidos é um aliado nosso. Nós somos europeus e atlânticos. É preciso nunca esquecer essa parte. Nós somos também atlânticos. E, portanto, temos que ter algum cuidado, algum sentido também de Estado", alertou.

Questionado sobre se o governo português, à semelhança de Espanha, deveria declarar que não reconhece o novo Estado da Venezuela, o candidato apelou à precaução, lembrando que Portugal trem uma posição que pode trazer vantagens, mas também riscos.

"Eu julgo que a precaução e caldos de galinha, como dizem os portugueses, é uma coisa importante. Nós estamos numa posição estratégica que nos traz vantagens, mas também nos traz alguns riscos. E temos que conviver com isso e perceber quais são os interesses portugueses, verdadeiramente", concluiu.

Além de Gouveia e Melo, concorrem às eleições presidenciais Luís Marques Mendes (apoiado pelo PSD e CDS), António Filipe (apoiado pelo PCP), Catarina Martins (Bloco de Esquerda), António José Seguro (apoiado pelo PS), o pintor Humberto Correia, o sindicalista André Pestana, Jorge Pinto (apoiado pelo Livre), Cotrim Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal), André Ventura (apoiado pelo Chega) e o músico Manuel João Vieira.