Renascidos, Consagrados e Evangelizadores

Os quase dois biliões e meio de habitantes do mundo celebraram uma semana de oração a pedir a sua unidade com Cristo. Não é pouco, mas mais unidos entre si serão fermento mais forte.

Terminada esta semana de unidade em prece a 25 de janeiro, iniciam-se, agora, dias de oração pelos consagrados a que me permito chamar de vida íntegra em Cristo, o Filho feito Homem da apresentação ao Pai no dia 2 de fevereiro. Por se consagrarem totalmente como pessoas de vida coerente e íntegra, os consagrados não se dividem aos bocados para servir a Deus e ao mundo, mas prometem seguir e ser no seu todo de Cristo e da Igreja. Hans Urs von Balthasar respondeu um dia que Cristo feito homem e o Verbo de Deus não é figura que se possa separar ou dividir em várias partes: Cristo dos sacramentos, do ensino, dos cuidados pastorais, da Tradição, como se fosse alguém dividido “em pequenas partes” e se pudesse “perder de vista o seu todo” (cf. Entrevistas sobre a Igreja de Angelo Scola, p.41). A maior exigência para cada consagrado é ser todo para Cristo. Esta entrega na totalidade de mente, coração e propósitos torna-se exigência e desafio de discernimento, e do querer que pede grande preparação do terreno da palavra divina. Não aceitar esta exigência é pôr em risco o conceito de consagrado como morada da palavra de Deus, individualmente e em comunidade, como propõe o tema para o Domingo da Palavra de Deus deste ano: “A palavra de Cristo habite entre vós” (Col. 3,16). Esta palavra é luz que ilumina as trevas terrenas de cultura onde a palavra deposita as sementes que a seu tempo darão os frutos das boas obras que se esperam dos batizados e consagrados de vida centrada em Cristo.

Quando falamos de consagrados, alimentados pela palavra de Deus não pensemos só nos padres, religiosos e religiosos de hábito. Hoje, há muitos leigos e leigas de aparência laical que vivem formalmente ou informalmente como consagrados. O alimento da mente e coração de todos é a leitura orante da palavra de Deus que os faz renascer de uma semente incorruptível por meio da palavra de Deus, viva e eterna, a Palavra que é anunciada pelo Evangelho (cf. 1 Carta de Ped.1, 23-24).

Perante a fragmentação das vidas e dos discursos discordantes e confusos da cultura atual, os consagrados, e todos os batizados, vivem o risco de substituir a verdade do Evangelho pela mentira e agendas mundanas duplas e triplas. Só a palavra de Deus escutada, lida e meditada com insistência pode servir de vacina resiliente para as mensagens enganosas espalhadas por alguns meios tecnológicos da Inteligência Artificial. A luz da palavra de Deus pode ficar encoberta pela ignorância e as trevas de fabrico tecnológico. O tempo de luz e da palavra de Deus ficariam, então, ensombradas e esgotar-se-iam com a pressa, uso negativo e ansioso desses meios.

Em sessões de formação constantes na Igreja não faltam alarmes sobre informações excessivas e desvirtuadas a dificultar a comunicação da Palavra de Deus de forma clara.

Talvez um dos maiores problemas para a sementeira da palavra de Deus seja a pouca alimentação fortificante com ela. Algumas maquinetas roubam tempo imenso, originam pressa e ansiedade, impedem o sono saudável. E o autoengano e as trevas mundanas invadem a mente com miasmas de morte espiritual. Resistir exige decisão e algumas privações; e mais leitura bíblica orante e mais silêncio para deixar que Deus se nos revele pelo seu Verbo ou Palavra Incarnada. Os algoritmos podem “enfraquecer a capacidade de escuta e de pensamento crítico”, como alertou o Papa Leão XIV em mensagem aos comunicadores, no Dia das Comunicações Sociais, (24.01.2026); e podem até impedir “a preservação de rostos e vozes” que “são traços únicos, distintivos de cada pessoa” que nos foram doados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança e se nos revelou na voz (palavra) e no rosto de Jesus, o Filho de Deus. O uso crítico das tecnologias deve evitar a perda do próprio pensar. A leitura da palavra de Deus, em voz alta, proclamada e pausada, sem ansiedade ou tímida vergonha, em comunidade, pode ajudar a afirmação da identidade de batizados e de consagrados.

Aires Gameiro