A vida toda na sala da televisão
A nossa sala também era o escritório da minha mãe. Bordadeira de casa e agente de bordados
A vida passava toda pela nossa sala e não vinha apenas pelas ondas hertzianas que, todos os dias, com melhor ou pior imagem, traziam as notícias até à televisão a cores numa curva esquecida do Funchal dos anos 80. A nossa sala também era o escritório da minha mãe. Bordadeira de casa e agente de bordados, a dona Celina geria com cuidado e delicadeza uma rede de bordadeirras, da qual dependia o sucesso na casa onde ia entregar o trabalho às quartas-feiras depois do almoço.
Antes de arrumar em embrulhos e sacos, a minha mãe procurava buracos, nódoas e via o talento. Nem todas tinham nascido para aquilo, mas enquanto não houvesse queixas do senhor António, o gerente da empresa italiana com sede numa transversal à Rua de Santa Maria, as senhoras tinham o mesmo tratamento e a mesma simpatia. À quarta-feira à tarde, chegavam, uma atrás da outra, para receber o dinheiro, umas sentavam-se nas cadeiras vime; outras ficavam à porta, à espera.
As contas dos bordados incluíam os descontos do desemprego e das linhas e, embora fosse rápida a fazer contas, a dona Celina não usava máquina de calcular e, nos minutos em que não havia o que fazer, as mulheres falavam. Da vida que estava cara, das manias dos maridos, dos filhos, das filhas. As melhores notícias das filhas, as que gostavam de dar, era quando “entravam para casar”. As raparigas que “andavam para casar” ganhavam estatuto; se tivessem azar ficavam faladas naquele Laranjal com televisão a cores e modos de pensar antigos.
A desgraça que era ser falada e a preocupação que isso dava àquelas mulheres, mais ou menos da idade da minha mãe, cujo melhor futuro que conseguiam ver para as filhas era um bom casamento. O resto parecia-lhes um prémio de consolação que nunca ia preencher a sensação de fracasso. Se o resto fosse um bom emprego, um que permitisse respeito e dinheiro para ser independente, conformavam-se, mas parecia-lhes sempre pouco.
Se não tinham estudos - uma parte não ia além da telescola; outra “não dava para a escola” - as possibilidades diminuíam. O noivado desfeito podia significar a ruína e era quase tão mau como uma gravidez fora do casamento, sobretudo se não pudesse ser despachado antes que se visse a barriga a crescer. Não existia medo pior do que esse: ter uma filha mãe solteira e um neto sem pai. E todas temiam os maridos, os que iam dizer e fazer, se as agrediam as filhas, se as expulsavam de casa, se o problema aumentava ainda mais.
As preocupações que davam as filhas, diziam elas, quase sempre no fim da conversa, já com o dinheiro do bordado no porta-moedas. As senhoras dos bordados diziam que as mulheres sem marido não eram inteiras, mas eu via as minhas tias e a minha prima Ana a fazer o mesmo que as outras pessoas: trabalhavam, tinham um ordenado, viviam. Não me pareciam menos felizes, nem mais complicadas. A minha tia Alice e a minha mãe eram casadas e viviam enredadas em canseiras, queixavam-se do dinheiro que não tinham e nunca sobrava.
Quando se ouvia a porta do caminho a bater, a minha mãe dizia-me para não esquecer do que tinha ouvido, que me servisse de exemplo para não deitar fora a sorte que tinha, que enquanto “desse para a escola” ia estudar e, se corresse bem, solteira ou casada, seria independente e dona da minha vida. A dona Celina também não se esquecia de avisar que as conversas podiam ser lições, mas os assuntos morriam todos ali, na nossa sala da televisão, onde acabava sempre por chegar a actualidade do Laranjal.