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O preço do silêncio

Quarenta anos depois, há novamente uma segunda volta em Portugal para escolha do Presidente da República. Se, em 1986, tínhamos uma disputa eleitoral entre Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares, este ano temos António José Seguro versus André Ventura.

Face ao desenlace da chamada às urnas do passado domingo, que ditou a necessidade de uma inusual segunda volta, não pode haver margem para equívocos nem para subterfúgios fáceis.

O confronto entre Seguro e Ventura não se cinge somente a escolher entre dois nomes oriundos de partidos diferentes, mas, sobretudo, entre duas formas de estar na política, de olhar o país e de entender a democracia. E isso exige uma reflexão atenta e, sobretudo, obriga a uma escolha clara de todos nós.

Se, nos próximos dias, os líderes dos partidos da Direita moderada não deixarem claro o seu apoio, corremos o sério perigo de termos o amanhã que não queremos. Não convém esquecer que, na política, a opção pelo silêncio, pela neutralidade ou pela indiferença pode até ser vista como a tática adequada, mas nem sempre se revela o mais acertado, podendo mesmo ter um preço elevado e consequências nefastas no horizonte político.

Antes de mais, faço uma declaração de interesses: sou militante do PSD há mais de 30 anos e, na primeira volta, fui apoiante convicta de Henrique Gouveia e Melo. Vi, no seu perfil e percurso, a sobriedade do serviço público, uma liderança capaz de unir os portugueses, e um projeto para Portugal com rumo, responsabilidade e respeito pela democracia. Não venceu, e penso que o país ficou a perder.

Mas agora não é tempo de nostalgia, mas de decidir o futuro imediato.

Pela própria importância do cargo em si, mas também face ao atual momento histórico, em que, em termos europeus e mundiais, proliferam decisões arbitrárias, ao arrepio de convenções e acordos internacionais, e em que os conflitos e guerras são, infelizmente, uma certeza, pondo em questão as sociedades democráticas tal como as conhecemos, não é despiciendo quem será o próximo Presidente da República Portuguesa.

António José Seguro não é da minha família política, nem sequer dos 11 candidatos seria a minha segunda escolha. Mas reconheço-lhe a cultura democrática, o respeito pela Constituição e uma forma serena de expressar discordância. Vejo nele alguém que entende a Presidência da República como um lugar de equilíbrio e não de confronto permanente. Realço mesmo a escolha feliz da palavra que servirá de bandeira para a segunda volta e projeto de Presidência: esperança.

No entanto, não ignoro, nem nenhum de nós pode ignorar, como é cativante a teatralização da política, a simplificação de ideias para o país e a mensagem forte de André Ventura nas redes sociais. Também não subestimo o poder do descontentamento que mobiliza e agrega, e que explora as fraturas sociais.

Mas o ressentimento não constrói um amanhã melhor. E um Presidente da República não pode viver de conflito, nem fazer da divisão um método constante de intervenção pública. Muito menos pode encarar a Presidência da República como trampolim para o objetivo principal: ser Primeiro-Ministro de Portugal. Ou até recuperar o que defendia em 2019, que era a extinção do cargo de Primeiro-Ministro, numa lógica de presidencialismo, em que, citando o que disse André Ventura na altura em entrevista ao jornal Público, “A figura orientadora da política geral do Estado passaria a ser o Presidente da República”.

O passado diz-nos que a Direita democrática portuguesa sempre se afirmou quando soube colocar o país acima dos partidos. No caso concreto das próximas eleições presidenciais, não é decidir entre Direita e Esquerda, que aí seria fácil. Mas entre um candidato do centro moderado e um candidato radical, entre alguém capaz de construir pontes e alguém especialista em detonar pontes.

Confesso que não entendo a falta de posicionamento do líder do PSD, que só fragiliza o meu partido. Claro que percebo que Luís Montenegro não queira colocar em perigo os entendimentos no Parlamento, mas corre o sério risco de perder o estatuto de líder da Direita e viver permanentemente sob chantagem. Pesando todos os fatores, continuo a pensar que não é de todo indiferente quem apoiar para a Presidência da República. Inclusive, Montenegro contraria o que publicou domingo nas suas redes sociais, em que afirmou: “Esta não é uma escolha indiferente ao futuro de Portugal”. Agora, seria tempo de afirmar o seu voto, seguindo o dito popular: “Dos males, o menor”. E que, realmente, “não é não”.

Reconheço que esta não é uma escolha confortável, pelas evidentes diferenças identitárias e ideológicas. Contudo, a escolha do Presidente da República para os próximos 5 anos não se circunscreve a uma opção partidária, pois o mais alto cargo da Nação tem de ser a âncora moral da democracia e definir o país que almejamos para os anos vindouros, e eu quero que o nosso futuro e o das gerações seguintes seja coeso, plural e solidário.

Assim, entre alguém com quem discordo em muitas matérias, mas que respeita as regras do jogo democrático, e alguém que as testa até ao limite, a minha decisão é clara. Não com entusiasmo, mas por compromisso. Não por afinidade política, mas por responsabilidade. Porque a democracia não se defende sozinha, nem sobrevive por inércia. Mas o extremismo cresce com a indiferença e o silêncio de quem devia fazer ouvir a sua voz.

É por isso que votarei com a serenidade de quem sabe que nem todas as decisões certas são fáceis, mas o futuro merece mais do que o nosso silêncio.