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Fechar um ciclo, abrir novos caminhos

O fim de um ano convida sempre à reflexão. Obriga-nos a parar, a olhar para trás e a compreender o caminho percorrido. Para mim, este é também o fim de um ciclo político: termina a minha responsabilidade como Presidente do PS Madeira. Há já por aí teorias que procuram insinuar cenários de transição artificial ou de liderança provisória no PS Madeira, que não passam de exercícios especulativos destinados a criar ruído, desconfiança e instabilidade interna num momento em que o partido escolheu, de forma clara e democrática, uma nova liderança. A eleição da Célia Pessegueiro foi legítima e resulta de uma vontade dos militantes, que merece respeito e lealdade política. Não há agendas ocultas, pelo menos da minha parte, ou tutelas informais. O PS Madeira precisa de funcionar como uma equipa, com foco e responsabilidade para cumprir o seu papel na oposição e na construção de uma alternativa credível para a Região. O meu compromisso continua a ser com a Madeira, com o sucesso da nova liderança e com um PS forte, preparado para servir a Madeira.

O ciclo que agora terminou, foi um ciclo vivido com intensidade. Reconheço, com humildade, que nem tudo correu como devia ter corrido. Mais do que ser Presidente do Governo Regional, o que sempre me moveu foi a vontade de ver a Madeira a funcionar de outra forma, em coisas muito concretas do dia a dia, e onde a política se fizesse com clareza e sem silêncios convenientes.

Não me arrependo de nada do que fiz, pois, cada passo foi tomado com a convicção de que era o melhor caminho a seguir naquele momento. Olhando para trás, faria algumas coisas de forma diferente, como qualquer pessoa que aprende com o percurso, mas não renego nenhuma. Porque tudo o que fiz, fiz com verdade e colocando a Madeira sempre em primeiro lugar.

Mas tenho também de vos dizer, com toda a sinceridade, que a Madeira - entenda-se alguns madeirenses - podia ser mais exigente consigo própria e melhor governada do que é hoje. Essa convicção não nasce da ambição pessoal, nasce da atenção ao que falta e da vontade de mudar o que, há demasiado tempo, ficou por mudar. É hora de, uma parte da nossa comunidade deixar de aceitar a desonestidade e a incompetência, com uma amnésia seletiva que absolve uns e condena outros. Enquanto isso, vão ficando no poder aqueles que não se interessam verdadeiramente pela Região nem em servir as pessoas, mas apenas os seus próprios interesses.

É também tempo, dentro do meu Partido, termos a frontalidade de reconhecer, que há comportamentos que acabam por favorecer os nossos adversários políticos. A crítica à liderança é legítima, faz parte da vida democrática e sempre a considerei necessária. O que não podemos é confundir espírito crítico com autosabotagem, nem transformar divergências internas em munição que prejudica todo o Partido. Nunca serei, no entanto, adepto de uma paz podre, nem de uniões falsas, porque sei que esses aparentes equilíbrios são, a médio prazo, muito mais prejudiciais do que a divergência assumida. O importante é que as críticas sejam feitas com sentido de responsabilidade e de pertença, para que as diferenças nos ajudem a crescer e não a fragilizar-nos. Um Partido constrói-se com debate interno, com respeito mútuo e com a consciência de que o essencial é proteger o projeto coletivo e as causas que nos unem.

Ninguém escreverá a minha história porque só eu sei as letras com que ela se fez. As letras da persistência, da coragem, da lealdade a princípios e da recusa em abdicar daquilo em que acredito. Uma história construída em dias difíceis, em silêncios impostos para não desestabilizar ainda mais, em escolhas que não renderam aplausos, mas que me permitiram dormir em paz.

Podia escrever outra história, sobre gente que semeou a calúnia, mesmo que vestidos com asas de anjo. Podia escrever sobre a inveja e a maledicência que tantas vezes condicionam o destino dos que acreditam e ousam fazer. Essa é uma história que nunca escreverei. Até porque, como disse Miguel Torga, “o destino destina, mas o resto é comigo”. E comigo ficará sempre a escolha de não me deixar aprisionar pela amargura ou instintos de vingança. Isso é o que faz de mim um homem livre.

Lendo, recentemente o livro do Cardeal Tolentino Mendonça, “Para Os Caminhantes Tudo É Caminho, retive a parte “Paciente amadurecer”, em que ele diz que “Amadurecer é (…) acender os dias com aquilo que restou, ainda quando parece insignificante; congratular-se com aquilo que é possível; comover-se com o que os outros podem dar, ainda que não coincida com o que havíamos pensado.” Talvez seja isso, afinal, amadurecer na política: seguir caminho com o que tenho, com a humildade suficiente para aprender e com a convicção intacta de que vale a pena tentar mudar o que sentimos que pode ser melhor. Bom ano!