Conectados, mas cada vez mais hostis
Nunca estivemos tão conectados. Mas nunca foi tão evidente que esta ligação permanente não nos tornou mais tolerantes, mais atentos ou mais capazes de conviver. Pelo contrário. As redes sociais estão a produzir um efeito paradoxal: mais contactos, mais exposição e mais hostilidade.
Um estudo publicado recentemente na revista científica National Academy of Sciences, mostra que a polarização política aumentou de forma dramática desde a massificação dos smartphones e das redes sociais. O dado mais perturbador é este: quanto mais contactos sociais acumulamos, maior tende a ser a fragmentação e a intolerância. Vivemos fechados em câmaras de eco, expostos sobretudo a opiniões que confirmam aquilo em que já acreditamos. Discordar deixou de ser um exercício democrático. Passou a ser um motivo de rutura pessoal.
Esta hostilidade manifesta-se de forma particularmente agressiva no espaço digital. O ecrã cria distância e a distância reduz a empatia. Atrás de um perfil, muitas vezes anónimo, dizem-se coisas que dificilmente seriam ditas cara a cara. É neste contexto que o cyberbullying prospera: insultos, humilhações públicas, perseguições digitais e ataques coordenados tornaram-se parte do quotidiano online. Não são exceções. São sintomas de um ambiente que recompensa o conflito e normaliza a agressividade.
As plataformas facilitaram uma perigosa desresponsabilização. Ataca-se, ridiculariza-se e segue-se em frente. O outro deixa de ser uma pessoa e passa a ser um alvo. Esta lógica corrói relações, empobrece o debate público e cria um clima permanente de tensão social.
Ao mesmo tempo, cresce o sofrimento psicológico. Um relatório da OpenAI, divulgado pelo PÚBLICO, revelou que milhões de utilizadores recorrem hoje a ferramentas digitais em estados de angústia emocional, dependência ou fragilidade mental. Estes dados não surgem no vazio. A exposição constante ao conflito, à comparação e à hostilidade online contribui para um desgaste emocional contínuo.
Há também um impacto cognitivo que não pode ser ignorado. Em 2024, o Oxford English Dictionary escolheu “brain rot” como palavra do ano, para descrever a deterioração mental associada ao consumo excessivo de conteúdos digitais superficiais. Em 2025, a palavra passou a ser “rage bait”, usada para identificar conteúdos feitos para provocar raiva e gerar engajamento. A mudança diz muito sobre o ambiente digital em que vivemos.
Nada disto é acidental. As plataformas digitais funcionam melhor quando provocam emoções fortes. A hostilidade gera cliques. A polarização gera envolvimento. O conflito mantém-nos ligados. Não foram desenhadas para promover diálogo nem convivência democrática. Foram desenhadas para capturar atenção, mesmo que isso implique normalizar comportamentos tóxicos.
A pergunta já não é se usamos redes sociais. Sim, usamos. A questão é outra, bem mais incómoda: queremos continuar a construir relações, debate político e cidadania escondidos atrás de um ecrã, sem empatia e sem responsabilidade? Se a resposta for não, então é urgente mudar o modo como participamos no espaço digital. Pensar antes de comentar. Discordar sem atacar. E, sobretudo, recusar o conforto dos perfis falsos e do anonimato usado como escudo para a agressão. A liberdade de expressão não pode continuar a servir de desculpa para a desresponsabilização. As redes precisam de menos ódio e mais pessoas reais, responsáveis pelo que dizem. Porque a escolha não é tecnológica. É ética.