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Crónicas

Saber perguntar é um ato político

A diferença que faz a diferença entre eleger moderados ou radicais, começa na forma como perguntamos

Como é que sabemos isso? Não como provocação retórica, mas como método. Porque a forma como perguntamos, a nós próprios e aos outros, determina a qualidade das respostas que aceitamos e, em última instância, o tipo de democracia que estamos dispostos a sustentar.

Há momentos em que as eleições não revelam apenas preferências políticas, revelam sobretudo, o estado emocional de um país. Revelam cansaço, desconfiança, desejo de ordem, fome de clareza. É nesses momentos que surgem discursos que prometem limpar tudo, varrer culpados, restaurar uma grandeza vaga e reconfortante. O perigo não está na promessa em si, está na ausência de perguntas que a acompanhem, ou na qualidade das mesmas.

O populismo não cresce apenas porque fala alto ou provoca. Cresce porque simplifica. Reduz problemas complexos a frases curtas, escolhe inimigos convenientes e oferece soluções ilusórias que cabem num slogan. Funciona não porque explica melhor, mas porque exige pouco esforço cognitivo. Quando a realidade é dura, a tentação dos atalhos torna-se enorme. Noto isso na maioria das entrevistas políticas que faço aos cidadãos, em geral.

É aqui que a democracia se defende. Não com gritos, mas com método. Não com indignação automática, mas com perguntas bem construídas. Perguntas que obrigam à precisão, à coerência e à responsabilidade, perguntas que desmontam generalizações, omissões e distorções.

Quando alguém afirma que “o sistema está todo corrompido”, a pergunta necessária não é emocional, é estrutural. Que sistema? Composto por quem? Sustentado por que leis? Substituído por qual modelo concreto?

Quando se aponta um grupo como origem de todos os males, a pergunta justa é factual. Que dados sustentam essa relação causal? Que variáveis estão a ser ignoradas? Que evidência contrária está a ser silenciada?

Quando se promete ordem, autoridade e disciplina, a pergunta inevitável é ética. Quem decide? Com que critérios? Quem perde direitos quando essa ordem se instala?

Perguntas como quem, como sabe que é verdade, como chegou a essa conclusão são essenciais.

Narrativas simplificadoras evitam este tipo de perguntas porque elas alongam o discurso, introduzem nuance e expõem contradições. Um slogan não sobrevive a um pedido de detalhes. Uma frase inflamada raramente resiste a uma pergunta que começa com como, com que meios e a que custo.

Há uma razão para isso. Enquanto o “o quê” se limita ao conteúdo, o “como” revela a estrutura profunda, a do pensamento, as crenças, os valores e os padrões de ação. Obriga a concretizar, a tornar mensurável, a assumir recursos, limites e consequências. O “como” retira conforto à abstração e expõe o que fica por dizer.

Não se trata de censurar ideias. Trata-se de exigir que se sustentem, com honestidade.

A liberdade de expressão não isenta ninguém da obrigação de explicar, demonstrar e assumir consequências.

A democracia não é um concurso de frases impactantes, é um sistema exigente e imperfeito, onde a complexidade não é um defeito, é uma condição.

Há também um elemento emocional que não pode ser ignorado. Quando o medo substitui o pensamento e a raiva ocupa o lugar da curiosidade, a clareza desaparece. Com medo, ninguém pensa bem. A neurociência descreve-o com precisão.

O antídoto não é superioridade moral. É literacia democrática. É reaprender a perguntar melhor. Começa em casa, continua na escola e acompanha-nos pela vida. Começa numa cultura de igual valor e responsabilidade, não numa cultura de obediência.

O maior risco destes tempos não são os discursos radicais, é a preguiça coletiva em desmontá-los. Cada pergunta que não fazemos deixa um vazio, e os vazios, em política acabam por se preencher, mais tarde ou mais cedo.

A democracia não se protege com fé cega nem com silêncio. Protege-se com lucidez, linguagem rigorosa e a coragem tranquila de recusar respostas simples para problemas complexos. Saber perguntar continua a ser um ato profundamente político.

Eu, enquanto jornalista, sinto hoje, mais do que nunca, o dever de fazer perguntas que não cedam à simplificação nem ao medo, que tragam clareza a informações incompletas ou mal interpretadas. A bem da democracia.