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Santana: para além do “postal ilustrado”

O início de cada ano traz consigo novos propósitos, todos com um denominador comum: projetar o futuro. Na minha lista de desejos está o reconhecimento do verdadeiro potencial do concelho de Santana, não só a nível regional, mas também nacional.

Falamos de um território com enorme capacidade agrícola e turística, um potencial que continua, em muitos aspetos, subestimado. Olhar para o Norte da ilha tem de ir além da visita pontual ou do postal ilustrado das emblemáticas casas de colmo.

Saí do concelho há 28 anos, quando as dificuldades eram maiores: acessos mais limitados, comunicações frágeis e a educação centralizada na “cidade” a partir do 10.º ano. As viagens pelo Poiso, com a habitual paragem no Ribeiro Frio, fazem parte da memória coletiva de quem aqui cresceu.

É inegável que houve melhorias significativas nos últimos anos. Ainda assim, persiste a sensação de que apenas quem vive nas seis freguesias do concelho, conhece verdadeiramente tudo o que o concelho tem para oferecer. Sempre que regresso, sinto orgulho pela identidade do território, mas também tristeza ao ver a diminuição da população e a falta de um investimento mais consistente do setor privado.

A agricultura e a gastronomia são pilares incontornáveis do concelho. A sidra de São Roque do Faial, o pão de Santana, as vinhas do Arco de São Jorge e de São Jorge, os limões da Ilha e a diversidade agrícola do Faial, que vai das bananeiras ao milho, bem como a riqueza dos produtos endógenos, constituem um património verdadeiramente inigualável. A paisagem, moldada pelo trabalho agrícola, é simultaneamente um ativo económico, cultural e identitário que importa preservar e valorizar.

Reconheço o trabalho desenvolvido pelas autoridades locais, mas o concelho de Santana precisa, acima de tudo, de ser encarado com um novo olhar por quem está “de fora”. O Norte da Madeira tem de ser um território de oportunidades. A juventude do concelho precisa de oportunidades na sua terra, e este caminho passa fundamentalmente por um investimento do setor privado. Criar emprego local é promover coesão territorial e garantir futuro.

Os emigrantes fazem também parte desta realidade e podem trazer muito mais do que remessas: conhecimento, experiência e novas perspetivas que podem contribuir ativamente para o crescimento do concelho. Talvez valha a pena explorar a criação de um conselho da diáspora, capaz de estabelecer uma ponte entre quem fica e quem partiu, aproveitando esse potencial, atraindo investimento e criando, para muitos, a oportunidade de regressar.

O concelho de Santana tem futuro. Falta apenas que todos, dentro e fora, acreditem verdadeiramente nele.