Pelo menos 648 mortos em protestos antigovernamentais
Pelo menos 648 manifestantes foram mortos em 14 províncias no Irão desde 28 de dezembro, data do início da nova vaga de protestos contra as autoridades de Teerão, anunciou hoje a organização não-governamental Iran Human Rights (IHRNGO).
Entre os mortos, estão nove menores, indicou a organização com sede na Noruega, que registou ainda milhares de feridos e estima que o número de detidos ultrapasse os dez mil.
Algumas estimativas, que a ONG não conseguiu verificar, sugerem um número de mortos bastante maior, atingindo mais de 6.000, acrescentou em comunicado no seu 'site'.
"Devido ao bloqueio da Internet desde 08 de janeiro e às severas restrições no acesso à informação, é extremamente difícil verificar estes relatos de forma independente", observou a IHRNGO.
Os dados da IHRNGO dizem respeito apenas a casos verificados diretamente ou através de duas fontes independentes e incluem também relatórios e documentação de hospitais e locais de recolha dos corpos das vítimas.
A organização referiu que as autoridades da República Islâmica descreveram os manifestantes como "arruaceiros, 'mohareb' (inimigos de Deus), terroristas e agitadores, associando-os a Israel e aos Estados Unidos, crimes puníveis com a pena de morte".
Nestes casos, alertou, as autoridades prometeram tratá-los "severamente e rapidamente" em tribunais especiais dos tribunais revolucionários.
No comunicado, a IHRNGO manifestou "profunda preocupação com a escalada e a continuidade dos assassínios de manifestantes, bem como com o risco de execuções em massa", apelando para "uma resposta imediata" da comunidade internacional.
"O assassínio generalizado de manifestantes civis nos últimos dias pela República Islâmica faz lembrar os crimes do regime na década de 1980, que foram reconhecidos como crimes contra a humanidade", comentou o diretor da IHRNGO, Mahmood Amiry-Moghaddam, citado no comunicado, destacando que "o risco de execuções em massa e extrajudiciais de manifestantes é extremamente grave".
A organização relatou que "as forças estatais usaram armas militares contra os manifestantes e, em alguns casos, dispararam sobre a cabeça e a parte superior do corpo".
Motivados pelos comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, milhares de iranianos aderiram a esta nova vaga de protestos que se espalhou por mais de 100 cidades.
O Irão tem uma taxa de inflação anual superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos EUA e da ONU devido ao programa nuclear.
O líder supremo, Ali Khamenei, advertiu que o país vai agir contra "atos de vandalismo" e não vai tolerar aqueles que agem como "mercenários ao serviço de estrangeiros", classificando muitos deles como "manifestantes violentos" com o propósito de agradar ao Presidente norte-americano, Donald Trump.
Há 10 dias, o líder da Casa Branca indicou que ia apoiar os manifestantes caso as autoridades iranianas disparassem contra eles e, já hoje, afirmou que dirigentes iranianos o contactaram para negociar no seguimento de ameaças de uma ação militar em resposta à violência durante os protestos.
Em junho passado, Israel e EUA realizaram ataques aéreos contra instalações ligadas aos programas nucleares e de mísseis balísticos do Irão, num conflito aberto que durou 12 dias.
A repressão das novas manifestações tem sido severa, e as autoridades restringiram o acesso à Internet em todo o país.
Em resposta, Trump pretende o envio de satélites da empresa Starlink, do bilionário Elon Musk, de forma a garantir que a população se mantenha 'online'.