Durão Barroso diz que relação transatlântica Europa-EUA vai basear-se em “interesses e negociação”
José Manuel Durão Barroso disse que temos de reconhecer que estamos num ponto de viragem na relação transatlântica após a segunda vitória de Trump como presidente dos EUA. A questão fundamental é se a relação está ameaçada, se está em causa a sua própria subsistência ou se pode continuar a ser uma relação relevante.
O ex-presidente da Comissão Europeia falava, por videoconferência, na sessão de abertura da 3.ª Conferência do Atlântico, que decorre no Museu de Imprensa da Madeira, em Câmara de Lobos, que aborda o tema de Winston Churchill e a Europa.
Para Durão Barroso, “a relação transatlântica está num processo de mudança muito crítico”, mas a relação tem condições para se manter como essencial para os países europeus e para a América do Norte. Será mais exigente, mas é preciso trabalhar.
Esta relação não vai fazer tanto apelo à cumplicidade transatlântica, mas vai-se basear em interesses e negociação. “A perspectiva transacional” estará presente. Trump não faz apelo a valores cúmplices, mas refere interesses que, até certo ponto, podem ser atendidos.
“Trump é o grande disruptor”, afirma Durão Barroso, uma vez que aquilo que não se poderia dizer em espaço político é agora dito na comunicação política. Esta é uma transformação acelerada pelas redes sociais.
A influência dos EUA vai manter-se a nível mundial, até porque Trump vai dar um vigor renovado no termo das relações internacionais.
A evolução científica e tecnológica está a ser dominada pelos EUA, seguido pela China, pelo que a influência vai continuar. “Os EUA são, e vão continuar a ser, a grande potência mundial”, assume o ex-presidente da Comissão Europeia.
Segurança, fragmentação política e autonomia estratégica são desafios actuais
O presidente da Câmara Municipal de Câmara de Lobos traçou três grandes desafios: segurança, fragmentação política e autonomia estratégica da Europa.
Eduardo Jesus diz que Churchill é uma “lição do acreditar”
Eduardo Jesus quis relevar a atitude de Winston Churchill, bem como a sua coragem, o não temer e o não se acobardar, porque “é preciso acreditar”. Destacou que a sua visão ia muito além da táctica, querendo sempre mais para o seu povo, a “nobre missão da política”.
Para Durão Barroso, temos de “reagir com inteligência”. Primeiro questiona se há interesse em manter a relação entre os EUA e a Europa. Não tem dúvida de que essa relação é precisa. Além da Europa e dos EUA, num contexto difícil e perigoso, leva a que estejam a ser mobilizadas contra o mundo ocidental as forças que outras partes do mundo. “Há uma mobilização do ressentimento sobre a Europa e os EUA”, frisou. “Uma derrota da Europa seria vista como uma derrota dos EUA”, considera Barroso, referindo-se à guerra entre a Ucrânia e Rússia. Além disso, diz que a relação económica entre a Europa e os EUA tem vindo a crescer, pelo que o interesse entre ambos se mantém.
Quanto a uma segunda questão, nomeadamente o que vai fazer a Europa, indica que tem de ser definido um caminho na relação com os EUA. Não pode ser o caminho de separação porque não temos condições para isso. Tem de haver um reforço da autonomia europeia, sendo indispensável um reforço no campo da segurança. “A necessidade da Europa investir na sua própria defesa”, sendo que considera que desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Europa não é mais a mesma.
“A Europa tem de assumir-se como uma potência do ponto de vista da Defesa”, sendo que considera que esses passos têm vindo a ser dados, embora de forma lenta. Durão Barroso diz que a Europa gasta mais na defesa do que a Rússia, mas os sistemas europeus não estão integrados, situação que deve mudar. Os EUA são aquele mais investe na defesa e segurança.
Durão Barroso afirma que “a Europa tem de fazer o seu trabalho de casa”: tentar arrumar a situação económica; integrar o mercado; e de ter planos específicos, nomeadamente na parte financeira.
“A vitória de Trump pode ser uma grande oportunidade para a Europa”, porque provoca a necessidade de mudar.
No final da sua intervenção, evocando “o dever cívico da esperança”, Durão Barroso deu conta de que Trump voltou a pôr na Sala Oval da Casa Branca o busto de Churchill. Esse tinha sido colocado noutra sala por Barack Obama e, posteriormente, por Joe Biden. Na redecoração da Sala Oval, Trump voltou a lá colocar o busto de Winston Churchill.