Crónicas

O bom, o mau e a cinderela

Sobre a casa de horrores em que se tornou a TAP, o primeiro-ministro esclareceu que foi o Estado que decidiu intervir na companhia aérea. A razão do esclarecimento é sintomática. Quando a intervenção corre bem, trata-se de uma opção estratégica do Governo. Quando corre muito bem, é uma medida histórica do Partido Socialista. Quando corre mal, tratou-se de uma intervenção necessária do Estado português. Já o dinheiro, esse, é sempre dos contribuintes.

O bom: Inteligência Artificial

“A Inteligência Artificial pode ser o maior presente ou o maior perigo da humanidade”, afirmou o cientista Stuart Russell. No entanto, apesar das preocupações legítimas que a IA pode suscitar, é inegável o seu potencial na área da saúde. Por exemplo, na investigação do cancro, a IA tem sido utilizada de diversas maneiras, como na análise de imagens médicas para identificar tumores e anomalias, na pesquisa e desenvolvimento de novas terapias e medicamentos, e na monitorização do tratamento do cancro. Através da utilização de algoritmos de aprendizagem de máquina, é possível identificar com precisão tumores e outras anomalias nas imagens, o que pode ajudar no diagnóstico precoce de doenças. Além disso, a IA também tem sido utilizada na monitorização do tratamento oncológico, o que pode ajudar a ajustar a medicação e o tratamento de acordo com as necessidades de cada paciente. Em resumo, é inegável o potencial da IA na área oncológica. A sua capacidade de analisar grandes quantidades de dados e identificar padrões e tendências é inestimável na prevenção e no tratamento desta doença. A IA tem se mostrado cada vez mais capaz de realizar tarefas que antes eram exclusivas dos humanos e isso é algo que devemos reconhecer e valorizar. Por fim, a questão que fica é: quando é que o leitor se apercebeu que este texto foi escrito por uma IA e não pelo João Paulo Marques?

O mau: Carlos Pereira

Há papéis ingratos. No caso do deputado socialista, à ingratidão do papel que lhe cabe na Assembleia da República, acresce a ironia. Eleito pelo círculo da Madeira, Carlos Pereira é o deputado da bancada socialista encarregue das empreitadas políticas mais complexas. Foi o madeirense que teve de justificar o chumbo da audição dos responsáveis pelo caso da ex-secretária de Estado do Tesouro. Antes já tinha sido chamado a caucionar a escolha do inenarrável João Galamba para ministro e, em Novembro, a defender a honra do primeiro-ministro perante o livro de Carlos Costa. Pereira cumpre o papel com gosto e astúcia. O problema é quando os berbicachos envolvem a Madeira. É irónico que seja um deputado eleito pela Madeira, o carrasco das ambições dos madeirenses. Primeiro, foi o chumbo pelo PS de uma proposta de lei que criava um regime mais favorável para os estudantes-atletas das regiões autónomas. Pereira, arguto, votou favoravelmente, sabendo que o voto contra dos socialistas açorianos asseguraria a reprovação. Esta semana, foi a vez de discutir a majoração do financiamento da Universidade da Madeira e dos Açores. Uma vez mais, Carlos Pereira foi chamado à liça. A discussão fez-se como sempre. Unânime da esquerda à direita. Todos os deputados reconheceram a importância e a justiça da proposta. Até que a unanimidade morreu na bancada socialista. A visível contra-gosto, Pereira explicou que era a favor da majoração mas que este não era o tempo certo para aprová-la. Seguiu-se Francisco César, deputado açoriano do PS. Efusivo e fanfarrão, em claro contraste com Pereira, César gabou-se de como o governo socialista tinha resolvido o problema da Universidade dos Açores, aumentando-lhe o financiamento por contrato. Tudo sem passar pela Assembleia da República. Uma via verde para os Açores e uma via sacra para a Madeira. Carlos Pereira ainda se riu. Provavelmente de si próprio.

A cinderela: Pedro Nuno Santos

Às doze badaladas, o super-ministro virou abóbora, que é como quem diz militante de base. A saída de Pedro Nuno Santos fez-se em dois atos. Primeiro, a demissão do governo, de seguida o abandono da direção política do PS. A tática está gravada em todos os manuais políticos. Dar um passo atrás para, de seguida, dar dois em frente. Por um lado, Pedro Nuno sai no momento certo, pois antecipa-se a Fernando Medina, seu futuro adversário na sucessão a Costa. A saída altruísta do governo permitirá, primeiro a distância e depois a crítica subtil a António Costa. Por outro lado, o antigo ministro também sai antes do momento errado. Apresentado ao país como reputado negociador de orçamentos, maestro de geringonças e, agora, transformado em impulsionador da ferrovia e arauto da habitação social, Pedro Nuno sai do governo sem ser confrontado com o resultado das suas opções governativas. Embora tenha saído à custa da TAP, até do verdadeiro custo da nacionalização da companhia aérea Pedro Nuno conseguiu escapulir-se. Não é por acaso que, à esquerda do PS, não se ouviu uma única crítica ao ministro demissionário. Para o Bloco, PCP e Livre, Pedro Nuno Santos continua a ser a melhor hipótese que têm de voltar a influenciar a governação do país. Agora, Pedro Nuno Santos livrou-se de Costa e no dia em que se tornar comentador televisivo, saberemos que terá decidido candidatar-se à liderança do PS.