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Os efeitos colaterais da guerra

Subjacente à guerra bélica existe uma guerra comercial não menos letal

Com a globalização já não existem países, existe um mundo onde todos dependem uns dos outros por isso qualquer foco de desestabilização num determinado ponto do Globo afeta até os mais recônditos pontos da terra. A estúpida guerra sem sentido que o ditador Putin decidiu mover contra a Ucrânia mostrou-nos claramente que ninguém ficará incólume e todos sofrerão consequências.

Os primeiros a sentir são, obviamente, o povo ucraniano com mortos, expatriados e cidades reduzidas a escombros. Mas esta guerra na Europa, separada da última por 77 anos e levada a cabo por outra besta sanguinária chamada Hitler, mostra ao Mundo que só um mentecapto se lembraria de desencadear um conflito armado desta envergadura com consequências futuras imprevisíveis quando todos nós pensávamos que tal já não seria possível em pleno século XXI ou seria uma hipótese muito remota no espaço europeu. Enganamo-nos! E aprendemos que por vezes o homem tenta fugir ao destino e encontra-o no caminho que percorreu para não encontra-lo.

Todavia esta calamidade não se resumiu apenas a mortos, feridos, desalojados e estropiados ultrapassa as fronteiras do Leste europeu, atravessa a Europa Ocidental e estende até o Continente americano os seus nefastos efeitos colaterais. Isto mostra-nos, povos e governantes, sem margem para erro, que a guerra não afeta apenas os países beligerantes, mas quanto estamos dependentes uns dos outros. Diz-nos, ainda, que uma atitude belicista de um monstro sem escrúpulos coloca o Mundo à beira do colapso e os humanos em pânico, não vá os senhores da guerra lembrar-se de carregar no “botão” fatal que reduziria o Mundo a cinzas. Povo livre vós tendes a liberdade de escolha através do voto mas também maior responsabilidade ao escolher os seus governantes, jamais entreguem o poder a ambiciosos expansionistas sem escrúpulos que desencadeiam tamanhas atrocidades.

Subjacente à guerra bélica existe uma guerra comercial não menos letal que dizima povos pobres à fome e à sede, sobretudo na África, América Latina e Médio Oriente. A excessiva dependência de energias fósseis provoca uma asfixia no sector primário gerando efeitos colaterais com reflexos terríveis nos bens de consumo dos quais o cidadão pobre depende mas tem de abdicar por falta de poder de compra. Até os intocáveis oligarcas são afetados nas suas torres de marfim, seja com o colapso na Bolsa de Valores seja com o congelamento das suas fortunas, como por exemplo Roman Abramovich. A esses também não interessa a guerra porque estão mais à vontade na guerra dos cifrões. Governantes sempre têm evitado cercear os poderes da economia de mercado livre, porém, tarde ou cedo terão que controla-la pois o seu poder fará cair governos democraticamente eleitos e deixará as populações à sua mercê.

Compreende-se, assim, que em pleno século XXI onde todos os setores de atividade se interligam já a ninguém interessa a guerra a não ser mesmo um esquizofrénico sem nada a perder. Citando Erich Hartman: “a guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam matam-se entre si, por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam mas não se matam.

Se alguma coisa de positivo esta estúpida guerra trouxe foi o condão de mostrar a solidariedade entre os povos de todo o Mundo - salvo os fanáticos idealistas, claro - condenando esta barbárie e lembrando que são aqueles, dos quais ninguém espera que façam nada, que fazem aquilo que ninguém espera. Afirmo sem medo de errar que o ditador russo Vladimir Putin deve ser, neste momento, o homem mais odiado do planeta e o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky um herói mundial. É meu fervoroso desejo que quando esta guerra acabar a Rússia seja condenada a pagar todos os estragos e Putin e seus acólitos sejam julgados e condenados por crimes de guerra tal como foram os assassinos nazis dos campos de concentração e extermínio de Auschwitz na segunda guerra mundial.

Sente-se os bens de consumo a aumentar exponencialmente usando a guerra como pretexto, porém quando tudo voltar à normalidade, espero que os governantes não permitam que os abutres do capitalismo selvagem se aproveitem de mais uma crise esquecendo-se de repor os preços dos bens de consumo de antes do conflito. Não suceda como a crise da troyka que inflacionou os preços e não voltaram a descer. A população não consegue suportar tantas crises seguidas, troyka, covid 19 e guerra na Ucrânia.