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Dias de internamento inapropriados

De louvar a introdução no SESARAM dum serviço específico, ligado à Medicina Interna, denominado Unidade de Doente Frágil

Por inapropriado entende-se, segundo os dicionários de português: “que não é bom ou próprio para determinado efeito, lugar ou objetivo”. Assim, e transpondo esta definição para o contexto hospitalar, sempre que um doente não necessita de um determinado tratamento e pernoita num hospital, considera-se esse dia de internamento inapropriado.

Desta feita, vou abordar este “fenómeno” que, terá impacto importante na gestão adequada das camas hospitalares, para que os doentes recebam tratamentos necessários ao seu estado de saúde.

Segundo Almeida, Anabela & Rogeiro, Ana, existem taxas elevadas de inapropriação das admissões e de dias de internamento - estudo denominado: “Os Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH) na inapropriação dos dias de admissão e de internamento” MPRA 6163, University Library of Munich, Germany. (2007). Tomando em linha de conta a variabilidade dos GDH - associados ao internamento, estadia no hospital e alta hospitalar - “A identificação regular destes problemas e de possíveis alternativas, através do recurso ao Protocolo de Revisão de Utilização (PRU), podem promover gradualmente a qualidade e eficácia em contexto hospitalar.” Esta classificação possibilita avaliar a performance de um hospital relativamente ao nível de consumo de recursos, o que seria impossível se recorrêssemos apenas à análise de um histórico, ou por comparação com outros hospitais.

E este fenómeno, segundo o Barómetro de Internamento Social (BIS) – um instrumento da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) para a medição periódica de doentes que estão com alta (mas que permanecem no Hospital e que, desde o primeiro momento, mereceram o apoio do Ministério da Saúde) – representa um total de 31.331 dias de internamento inapropriados, nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Isto equivale a cerca de 4,7% do total de dias de internamento, representando uma despesa de cerca de 68M€ (milhões de euros). Daí se compreenderá que este fenómeno tem um peso muito grande na gestão dos hospitais do SNS (o SESARAM incluído), entendendo-se que esta discussão seja tão pertinente quando se fala de cuidados continuados e de articulação entre a Saúde e a Segurança Social (SS).

De louvar a introdução no SESARAM dum serviço específico, ligado à Medicina Interna, denominado Unidade de Doente Frágil. Este serviço pioneiro tem tido reconhecimento nacional, pelos resultados apresentados o qual, estando integrado em ambiente hospitalar, será um entreposto de uma parte das altas problemáticas - já que admite doentes com critérios de fragilidade física e mental (Síndrome de Fragilidade). Este serviço exclui, à partida, os casos de grande fragilidade social, uma vez que seria inapropriado estar a investir na recuperação física e mental destes doentes, para depois serem integrados em domicílios que não tem condições de qualquer ordem (incluindo o apoio familiar) para darem continuidade ao trabalho e investimento feitos.

Outro aspeto positivo deste serviço, que até foi referido pelo seu coordenador, Dr. Miguel Homem da Costa - em entrevista conduzida pela jornalista Erica Franco e concedida ao DN (em 1 de dezembro passado) - “Também somos inovadores, porque abrimos as portas desta unidade a pessoas com idade superior a 18 anos. Enquanto as outras unidades que existem na Europa e pelo mundo fora abrem a porta a idades mais avançadas, nós chegámos à conclusão que, apesar do Síndrome de Fragilidade não ser tão prevalente nas idades jovens é significativa e as consequências são igualmente incapacitantes”.

No que diz respeito à gestão hospitalar, os hospitais apresentam como objetivos: reduzir o tempo de internamento, aumentar o número de camas disponíveis para novos internamentos e reduzir as listas de espera. Neste contexto, os hospitais têm necessidade de prever os tempos de permanência num serviço de internamento.

A prática indica que essa previsão vai ser diferenciada de serviço para serviço, tendo em conta as metodologias aplicadas e a eficiência dessa aplicabilidade, sendo certo que muita informação, estudos e métodos têm sido postos ao serviço de quem dirige os hospitais. Mas a verdade é que sabemos que, segundo o BIS, 75% desses dias inapropriados deveram-se a internamentos em serviços médicos e 23% a serviços cirúrgicos. Sabemos, ainda, que 28% correspondem a pessoas entre os 18 e os 65 anos, 34% referem-se ao intervalo entre os 65 e os 80 anos e 37% dizem respeito a internamentos de utentes com mais de 80 anos. Apenas 1% respeita a pessoas com idade inferior a 18 anos.

Partilho da opinião da colega Ana Rita Teixeira Ferreira quando mencionou, na sua Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Medicina que: “A admissão prematura, o internamento para procedimentos que poderiam ter sido realizados em ambulatório e a prática conservadora foram apontadas como as principais causas de inadequação das admissões nos internamentos. Como fatores de inadequação de dias de internamento foram identificados a prática conservadora, a demora na obtenção de exames de diagnóstico e a inexistência de uma instituição alternativa para transferência do doente.” (ciclo de estudos integrado, abril 2018, na Universidade da Beira Interior).

Parafraseando o Presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna – Dr. João Araújo Correia (em artigo publicado no SaúdeOnline de 6 de dezembro 2022:

“…a displicência da Segurança Social, arrasta-se há anos sem fim à vista, numa espécie de hipocrisia do silêncio.”

Portanto, todos estes fatores, com grande ponderação para o da dificuldade em encontrar uma instituição para transferência dos doentes, contribuíram para chegarmos a este estado, que não sendo único do nosso país, tem aqui uma expressão enorme e que o BIS resume em 4,7% dos dias de internamento.

Daí que, para além da adequação dos internamentos que por via da inapropriação têm um peso enorme quando não se aplicam as boas práticas clínicas e ainda por falta de soluções adequadas às altas (e que ultrapassam os critérios clínicos, sendo certo que parte deles poderiam ter na Hospitalização Domiciliária uma via de solução), o SNS, bem como o SESARAM irão implementar outras soluções, sem esquecer os investimentos já programados e anunciados no PRR – Plano de Recuperação e Resiliência.