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Portugueses retidos no Brasil queixam-se de custos do voo TAP e criticam Governo

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Portugueses à espera de um avião de regresso a Portugal queixam-se dos preços pedidos pela TAP no voo de repatriamento, marcado para sábado, e apontam críticas ao Governo, enquanto alguns procuram alternativas.

Jorge Costa, português, residente em Portugal, partiu há cerca de um ano para o Brasil "para tratar de assuntos pessoais" e foi apanhado pelo cancelamento de voos quando pretendia regressar.

A viver em casa de familiares, Costa recusou, porém, pagar os 890 euros por passagem pedidos a quem estava na lista para o voo de repatriamento de sábado.

A viagem que fez para o Brasil, há cerca de um ano, "foi programada em 2013 para acontecer em 2020", data em que a filha da mulher terminaria o ensino secundário no Brasil e poderia ingressar na universidade em Portugal, contou.

"A minha esposa desfez-se de tudo, de casa, de carro", durante este ano, para se poder deslocar para Portugal com a filha.

Jorge Costa foi para ajudar e finalmente poderem viver os três em Viseu, onde reside. O que guardaram para Portugal está dentro de seis malas de 23 quilos cada. Tudo já pronto, porque era suposto viajarem, em fevereiro, com as passagens compradas na companhia aérea Azul, "a preços razoáveis".

Como os voos para Portugal foram cancelados, Costa recorreu ao consulado em Brasília, cidade onde ainda se encontra com a família em casa de familiares, que o estão a ajudar.

No consulado, foi incluído nas listas para um eventual voo de repatriamento do Estado português. Mas, garantiu que já na altura foi aconselhado a arranjar rotas alternativas. "Porque já havia uma lista de 70 pessoas para o voo, que eram pessoas doentes e sem recursos", explicou.

"Cidadão português residente em Portugal, seja rico, ou seja pobre, esteja em que Estado estiver, tem direito a entrar em Portugal e sem entraves, e ter de ir dar a volta ao mundo" para regressar ao seu país, defendeu.

As únicas alternativas que tem neste momento "são a Swissair e a Air France", salientou, "a preços mais baratos do que na TAP".

Dias depois foi contactado pela TAP que lhe disse: "O senhor está aqui na lista de repatriamento e são 890 euros", recordou.

Nessa altura, Jorge Costa disse que se sentiu indignado. "O Estado português está a tapar os olhos aos portugueses a dizer que ajuda os seus concidadãos e não ajuda nada", afirmou na conversa por telefone com a Lusa.

"O Estado português está a querer ficar bem na fotografia, quando isto é um voo comercial, a ganhar dinheiro com os desesperos das pessoas", criticou. Por isso, "neguei", referiu.

E, quanto à TAP, questionou: "Porque é que está em crise, mas não faz nada para ganhar dinheiro?". "Porque é que não se podia transferir o valor da passagem comprada na Azul para a TAP?", perguntou. "Eu não quero um voo grátis, quero um voo a um preço justo", sublinhou.

"Porque estão outras companhias a ganhar, em vez da TAP?", voltou a questionar, salientando que os próprios serviços consulares lhe sugeriram procurar outras alternativas.

"Então porque é que em vez de um voo comercial, não fazem dois ou três, a preço justo, e assim vai toda a gente, que provasse ser cidadão português?", concluiu.

"É vergonhoso o que se está a passar. A TAP está a pedir 890 euros por cada passagem São Paulo-Lisboa, num voo que foi anunciado pelo Governo português como de repatriamento e humanitário", afirmou, por seu lado, à Lusa um inspetor da Polícia Judiciária, do Departamento de Investigação Criminal de Setúbal, que apenas pediu para não ser revelado o seu nome por motivos profissionais.

Para o inspetor, "ainda é mais vergonhoso porque o dinheiro que o Estado está a injetar na TAP vai ser pago por todos" os "cidadãos portugueses".

Este português chegou em 02 de janeiro ao Brasil, para as habituais férias anuais com a família do lado da mulher, que é brasileira, acompanhado da esposa e da filha. Todos viajaram com a companhia aérea Azul e tinham data de regresso marcada para 29 de janeiro, pois o inspetor deveria apresentar-se ao serviço em 01 de fevereiro.

Agora, é um dos portugueses retidos no Brasil que se recusou a pagar 890 euros por cada passagem. Com a mulher, com dupla nacionalidade (brasileira e portuguesa) e a filha, o inspetor da PJ fazia parte da lista de contactos do consulado para um possível voo de repatriamento.

Em declarações à Lusa, por telefone, a partir da cidade brasileira de Curitiba, disse contar com o apoio dos familiares da mulher, "porque de outo modo já não conseguiria suportar as despesas". Ali foi contactado algumas vezes pela representação consular portuguesa e esta semana recebeu o último telefonema a informá-lo que iria ser contactado pela TAP, porque a família poderia ter lugar no voo.

"A TAP contactou-me mas pediu-me 890 euros por passagem e ainda teria de suportar as despesas daqui [de Curitiba] para São Paulo, porque o voo 'supostamente' de repatriamento parte de São Paulo", explicou, indignado.

"Desisti e vou ter de ficar à espera, numa situação complicada, que haja um voo da Azul", cuja última marcação é para meados de março, rematou.

Em 17 de fevereiro, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, anunciou o repatriamento de portugueses que se encontram no Brasil e que precisam de regressar a Portugal por "razões humanitárias".

O Governo suspendeu, em 27 de janeiro, os voos de e para o Brasil entre 29 de janeiro e 14 de fevereiro, uma medida "de último recurso", que já foi prorrogada, e que Santos Silva admitiu ser necessária tendo em conta a "situação muito difícil" que se vivia em Portugal em relação à pandemia de covid-19.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.498.003 mortos no mundo, resultantes de mais de 112,5 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

O Brasil registou 251.498 mortes, num total de 10.390.461 casos confirmados, praticamente um ano após a chegada da pandemia ao país, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em Portugal, morreram 16.185 pessoas dos 801.746 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.