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Não há fumo sem fogo, mas há fogo sem fumo

Desde miúda que me lembro de ver os navios na baía no final do ano. Uma correria danada durante o dia para ver de perto os barcos que chegavam, com uma lotação de mil pessoas incluindo tripulantes, o que para nós, no final dos anos 80, era uma epopeia. Lembro-me de os ver, à meia noite, espalhados do outro lado do fogo de artifício, que eu via da casa da minha avó, no alto de Santo António e da quase imediata largada a seguir ao fogo, até os perder de vista no horizonte.

Este ano, muitos anos depois, voltei à varanda do Lombo dos Aguiares. Não vi fogo. Não vi barcos. E uma hora e meia depois, ainda não via muita coisa, especialmente na zona onde moro, porque a nuvem criada pelo fogo de artifício demorou a dissipar-se pela falta de vento.

Pensei que era impressão minha. A idade, a falta de vista, uma hipotética falta de memória que me trazia rasgos da infância que eu julgava certos, mas não. No dia seguinte percebei que não era a única que não tinha visto mais do que os primeiros potes do mar, porque os navios, qual triângulo das Bermudas que engole aviões, tinham sido engolidos sabe-se lá para onde. Cheguei a pensar no D. Sebastião a regressar, mas se ele chegou também ninguém o viu.

Não ponho em causa o cartaz. Nem o recorde do livro do Guiness que, felizmente, não fez avaliações este ano, senão tínhamos ido todos pelas canas dentro. Ai que saudades que tenho do tempo em que o fogo era de canas, limpinho, limpinho. Sem fumo.

Mas como não sou entendida na matéria, pus-me a ver a tal da pirotecnia nos outros lugarzinhos do mundo, assim insignificantes, como o Rio de Janeiro, Sidney, Nova Iorque. Não fizeram metade do fumo do nosso, tinham o triplo das cores e descobri que afinal é possível fabricar material pirotécnico com mais qualidade e beleza do que o que nos deram e que sabe lá Deus quanto é que nos custou.

Lendo muitas opiniões de que isto de ano para ano está a piorar, o que me ficou na retina foi a extensa nuvem que cobria a cidade mais de uma hora depois. Não me digam que foi a falta de vento, essa desculpa é mais para os lados do Aeroporto e normalmente é por excesso.

Diria mesmo que para quem vem ao Funchal uma vez na vida, foi um colosso. Para quem viu a partir do mar, foi uma surpresa que durou dois minutos. Depois, fechou-se a cortina provocada pelos postos, pelos vistos, mal distribuídos, segundo os entendidos, o povo, que é quem não tem interesse direto na matéria e a quem poucos dão crédito. 38 postos e um milhão de euros depois, ficou a sensação de que a comemoração dos 600 anos merecia mais. Nós merecíamos mais. Porque por este andar, qualquer dia até no Festival do Atlântico se dá mais fogo do que a 1 de Janeiro. Já agora, comprem dos que não trazem mais fumo do que luzes.