Compromisso com o património
Mudar o mundo a partir dos museus é possível, mas com mudanças a partir de dentro. D. Nuno Brás quer valorizar o património da Igreja mantendo-o no culto
Os museus podem salvar o mundo, mas essa mudança tem de começar de dentro, com a abertura ao exterior, com a inclusão e com a valorização do papel educativo destas instituições, defendeu esta manhã Alice Semedo, conferencista principal da terceira edição d’ ‘As Conferências do Museu’, promovidas pelo Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF) e dedicadas este ano ao tema da mediação. Presente esteve também o Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que valorizou na sua intervenção o património e a educação, e defendeu, um pouco antes da intervenção, a presença do património religioso nos lugares de culto.
O património é que recebemos dos nossos pais e o que está nos museus é o que reflecte a cultura e a sociedade, recordou, por isso há a obrigação de cuidar de preservar. Os projectos do novo bispo nesta área passam essencialmente por colocar este património em exposição cultural, como tem sido “bastante bem feito”, mas também de mostrar que este património “é uma expressão da fé” e por isso quer “colocar este património como um convite à fé dos que nos visitam também”.
Sobre a questão de deixar ou não as peças valiosas nas capelas e igrejas e do risco que isso representa, D. Nuno Brás sublinha que o património é sempre vulnerável e não é eterno. “Não podemos ser fundamentalistas nisto, tudo aquilo que existe, nasceu, existe e desaparece. Agora claro que vamos preservar o máximo possível, tendo sempre em conta que este património não foi feito simplesmente como uma obra de arte, foi feito como uma obra de arte para o culto, e portanto estaríamos a desvirtuar o património se o retirássemos do culto”.
O Bispo do Funchal diz que o levantamento do património existente na Madeira está bastante bem feito e já olhou a este dossier, mas confessa que ainda não teve tempo de tratar de tudo.
Quanto ao aspecto da preservação e da partilha da responsabilidade neste tema com o Governo Regional, D. Nuno Brás declara “equipa que ganha não se mexe”. O trabalho, crê, está a andar bem, com o Governo Regional a ter já assumido que não é apenas um dever da Igreja. O património sacro ultrapassa também a dimensão do património sacro para ser um património também da própria sociedade madeirense. A igreja, garante, tem assumido e vai continuar a assumir o papel de fiel depositária”.
Quanto às restantes questões mais quentes, o Bispo mantém-nas na esfera do tratamento particular por parte do bispo.
Voltando às conferências, que decorrem no Museu de Arte Sacra do Funchal até amanhã, Alice Semedo acrescentou numa conversa à parte que os espaços de educação são privilegiados para a mudança e com ela para a mudança do mundo. Trata-se, diz, de mudar não apenas questões relacionadas com o conhecimento sobre o mundo, mas o estar e viver nele. A professora e mediadora acredita que a mudança interna nos museus é “muito necessária, uma mudança de cultura”, que passa por pensar quais as ferramentas, enquadramentos e de a instituição se pensar enquanto educador. “A transformação começa por dentro”.
Alice Semedo vê os museus como espaços activos, de mudança, de defesa dos direitos humanos, de debate e de intervenção. Como? Com abertura. “Enquanto não houver essa apropriação, de se fazer o museu também com outros, dificilmente haverá transformação no mundo”, declara.
Olhando para o país, há bons exemplos de abertura que mostram que é possível. As dificuldades são várias e de vários âmbitos. A mudança cultural interna é uma das barreiras. É preciso pensar também outro tipo de estratégias que tenham em vista o fazer, com resultados. Isto implica um investimento financeiro, reconheceu.
A professora defende a atribuição de um orçamento próprio para a educação para os museus possam investir nesta área, em programação com qualidade. Por outro lado, diz, passa também pela valorização do educador, nomeadamente incluindo-o na programação de exposições e desenvolvimento dos programas. “Não é que veja a educação de uma forma muito ampla, mas existem competências muito próprias relacionadas com o trabalho da educação museal que deveriam ser valorizadas.” Na maior parte dos casos, o educador vem depois das exposições, não faz parte. Parte desta visão da educação como algo que é acessório e não como função completa do museu”.
O MASF tem o serviço educativo mais antigo da Madeira, em termos de museus, este ano faz 25 anos. Cerca de 3.000 pessoas passam por ano no serviço educativo deste espaço de aprofundamento de conhecimento, em diálogo com a colecção. Ao longo do ano é um público muito diversificado que procura o serviço educativo, as visitas orientas”, revelou João Henrique Silva, o director do Museu. “É um trabalho fundamental para o museu ser mais e melhor conhecido”, afirmou.
‘As Conferências do Museu’, explicou, foram criadas para alargar a presença do Museu na sociedade, na cidade, junto do público e para criar novos públicos. O museu não se quis ficar pelo trabalho tradicional de salvaguardar, dar visibilidade e comunicar a colecção. “Era importante criar um evento que no fundo faça do Museu também um centro cultural que irradia conhecimento, e tem uma interface com a sociedade, através do público que procura aprofundar o seu conhecimento sobre as artes e a actividade artística”.
A iniciativa termina amanhã.