“A humanidade dos nossos semelhantes é o lugar onde podemos encontrar a Deus”
O cardeal D. Tolentino Medonça fez jus às suas reconhecidas qualidades poéticas e literárias na homilia desta manhã na missa de Natal da Sé do Funchal, sem nunca descurar o simbolismo cristão de uma época em que nos sentimos mais próximos de Deus.
Sob o tema “Tocar o Mistério de Deus”, D. Tolentino começou ppr dizer que esta é a altura em que “o verbo fez-se carne”, nesta visualização que nos faz ver e acreditar.
Lembrando a mensagem de Natal do Papa Francisco, o cardeal falou na importância “de representar o Natal, não apenas com palavras e símbolos, com ornamentos e conceitos teológicos, mas com pessoas vivas”. O desejo de representar o menino que tão bem explicou São Francisco de Assis é materializado nos presépios que hoje temos em nossas casas: “O presépio oferece plasticamente aos nossos olhos do corpo a possibilidade de ver, mesmo se sabemos que não é suficiente que Jesus nasça fora de nós, numa visão apenas exterior”.
“Queridos irmãs e irmãos, o Natal fica incompleto se cada um de nós não puder ver com os seus próprios olhos e não puder tocar o mistério de Deus. O Natal é a anti abstração. O Natal possui a concreta objetividade de um acontecimento que se dá diante de nós e em nós. Cada um com as perguntas que traz, com as experiências que transporta, com a situação real que vive é chamado a ver Deus. A ver Deus naquele Menino de carne e osso, naquela criança, naquele Filho que nos foi dado. Ao mesmo tempo, que somos igualmente chamados a nos deixarmos ver por Ele. “
Neste “desafio da visualização, D. Tolentino deixou “quatro pistas para o caminho interior e eclesial”.
“Primeiro: temos de sentir que a encarnação do Filho de Deus representa um sim oferecido à nossa humanidade. Deus ama-nos com um amor incondicional. E não ama uma idealização, mas a vida de cada pessoa tal qual ela se apresenta.” O cardeal sublinha que a Fé não é apenas aquela que temos em Deus, mas a que Deus tem em nós.
Depois, o Natal pede renovação. “Somos em segundo lugar chamados a descobrir que em Jesus começa um tempo qualitativamente novo, ao qual não podemos permanecer estranhos.”
Para D. Tolentino é importante também perceber o paradigma da vida. “Frequentemente caímos na tentação de julgar que nascemos apenas uma vez, que o nascer foi um ato pontual e único que ocorreu na nossa vida e que agora a única coisa que temos por certa é a nossa morte. Ora o Natal mostra que isso não é verdade. A vida pode ser muitas vezes, e todas as vezes que forem necessárias, um parto.”
Por fim, revelou, “o quarto desafio é precisamente a compreensão de que o Natal de Jesus nos compromete na construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna, com menos desigualdade, menos indiferença e menos solidão. Contra o descarte que mata, o Natal inicia-nos na arte da inclusão. Contra o esbanjamento egoísta, o Natal pede-nos sobriedade e partilha. Contra aquilo que o Papa Francisco chama “o terrorismo da indiferença” o Natal pede-nos a clareza de uma cultura do encontro. Nós que contemplamos o presépio, nós que vimos a Sua glória temos de sair ao encontro da humanidade que sofre. A humanidade dos nossos semelhantes é o lugar onde podemos encontrar a Deus.”