Leitor indignado
Em pleno século XXI passar diversas vezes por uma viatura estacionada perto do Bar “O Golo” e ver uma mãe a viver dentro de um carro de marca Jipe já há longos meses é triste.
Julgava já não ser possível assistir a uma situação tão degradante como esta.
Primeiro porque sou filho e como filho que sou não consigo conceber a ideia de saber que a minha mãe está a viver numa situação tão precária e com casa para poder viver e nada fazer. Eu, poder usufruir dessa mesma casa, com todas as comodidades e luxos que isso oferece e conseguir deitar a cabeça tranquila no travesseiro à noite, sabendo que por ventura a minha mãe está a ser vítima do incómodo de dormir num banco de um carro, está a ser sacrificada ao frio gelado que se faz sentir nesta altura e muito mais dentro do carro, em que a temperatura arrefece muito. Como poderia eu, como filho, conseguir continuar com a minha cabeça erguida sabendo que a mulher que me deu a vida, que lutou todos os dias para que eu não tivesse frio nem passasse fome, estivesse ela agora a passar por tudo isso e eu a assistir pávido e sereno.
Segundo porque sou pai e só penso no quão seria humilhante para mim um filho permitir tal situação a um pai. Vivemos num mundo egoísta em que só importa o nosso real prazer e satisfação. Tenho medo deste mundo em que vivo, em que uma mãe traz um filho à vida, cuida, faz tudo por ele, abdica de tanto na sua vida por um filho e de repente vê-se num carro a viver para poder se abrigar da chuva e vento. Tenho medo desta geração egocêntrica de filhos que o mundo está a ver crescer que são capazes de consentir tal atrocidade com os seus pais. E mais horror tenho da falta de vergonha com que esses seres passeiam pelas ruas, assobiando para o ar, preocupados em manter uma imagem e estatuto que em nada reflecte a sua boa conduta familiar.
Terceiro porque sou um ser humano, que se escandaliza facilmente com a hipocrisia deste mundo, que levemente se sensibiliza com a forma como estão a ser tratados os pais deste mundo, porque não consigo ficar indiferente a tamanha falta de sensibilidade, falta de gratidão, falta de vergonha, falta de tudo. Não consigo naturalmente passar por este cenário e não sentir um aperto no coração, contemplar a imagem de uma mãe triste, envergonhada, sozinha. Ver espelhado nos seus olhos a dor de um desagradecimento sem nome, olhar para o seu corpo e supor as dores do desconforto no corpo. Não consigo calar-me perante tal atrocidade. Eu quero poder viver num mundo, em que já não seja obrigado a presenciar estas desumanidades contra os nossos pais, quero viver num mundo onde não existe pessoas más capazes destas monstruosidades contra os seus pais, eu não quero colocar no mundo filhos capazes disto.
As autoridades já estão alertadas para esta situação e a senhora, talvez por receio, desmente um facto que é conhecido de tantas e tantas pessoas. Não vá ter consequências assumir isto. Sabemos lá!!
Peço em jeito quase de grito de revolta, que alguém faça alguma coisa, que as autoridades não se limitem a acreditar numa mãe envergonhada, com medo. Façam rondas, em horários diferentes e permitam-se, a ver com os vossos olhos, aquilo que um filho nunca deveria permitir e aquilo que uma mãe nunca deveria passar.