Crescer dói

«A ingratidão é o mais horrendo de todos os pecados». A frase de Alexandre Herculano evidencia o de mais obscuro existe no ser humano. O pecado cruel, atroz, impiedoso que é imune ao sofrimento que causa

06 Dez 2017 / 02:00 H.

Crescer dói. A carne rasga-se em feridas profundas, as pontadas atingem os ossos de forma lancinante, a alma sangra e enche-se de cicatrizes que só o tempo é capaz de endurecer.

- Eu não quero crescer, papá... Deixa-me ser pequenina para sempre...

Crescer dói, mas este é um processo necessário, obrigatório, inevitável. Sofrido...

Durante esta dura etapa, há momentos quem que questionamos quem somos, o que fazemos aqui e porque estamos no mundo. As dúvidas assaltam-nos a toda a hora e a todo o instante, as atitudes impensadas, precipitadas, impreparadas, levam-nos muitas vezes a percorrer caminhos obscuros, tortuosos, íngremes...

- Não me deixes crescer, papá... Os adultos são crianças feias e egoístas...

Crescer dói, mas faz parte desse crescimento experimentar sentimentos diversos e controversos. A ingratidão é um deles. Virar a cara a quem nos fez bem, proferir palavras odiosas a quem, um dia, foi amável connosco, revoltar-se contra aqueles que lutaram pela nossa felicidade, afastar-se dos outros que estiveram sempre lá, prontos para amparar as nossas quedas, solícitos a todo e qualquer pedido de ajuda.

- Se eu crescer, eu sei que te vou magoar, papá...

«A ingratidão é o mais horrendo de todos os pecados». A frase de Alexandre Herculano evidencia o de mais obscuro existe no ser humano. O pecado cruel, atroz, impiedoso que é imune ao sofrimento que causa. De uma maneira ou de outra, este pecado apanha-nos nas voltas da vida. Há que saber expiá-lo, combatê-lo, defrontá-lo...

- Perdoa-me papá... Eu não sabia o que estava a fazer...

Os ossos tornam-se mais fortes, as cicatrizes endurecem, o carácter molda-se e afirma-se. Aprendemos com as cabeçadas da vida e com os tropeções dos erros, a erguer e a levantar a cabeça. O discernimento transforma-se e aquilo que ontem era um poço sem fundo, escuro e assustador, assume uma outra forma, mostra que afinal existe uma saída, uma solução, uma escapatória.

- Eu aprendi, papá... Hoje sei que errei...

O tempo que passa e que é o único grande professor de cada uma das jornadas do ser humano. O tempo que ensina a dobrar a língua e a pedir desculpa, o tempo que mostra que aquilo que ontem era uma verdade absoluta, inabalável, hoje pode e deve ser colocado em causa.

Crescer dói e nem sempre estamos atentos aos sinais e às tábuas de salvação que nos atiram. Nem sempre achamos que precisamos delas. O mundo cheio de convicções inabaláveis está repleto de perigos e rasteiras que espreitam a cada esquina. Os tropeções são nossos, a carne rasgada é a nossa. Ninguém pode trilhar esse caminho por nós.

- Devia ter-te dado ouvidos, papá... Perdoa-me...

Ontem, a adolescente temerosa, cheia de demónios e de sombras a enegrecer a alma, hoje é adulta e ciente de que as dores do passado são cíclicas e hereditárias.

Crescer dói e ela ainda carrega no corpo as marcas desse crescimento. Mas hoje, só hoje, apenas deseja que aquele abraço de pai e filha dure para sempre.

- Não me deixes crescer, papá...

Sónia Silva Franco
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