Areias movediças

Ambicionávamos verdadeiros patriotas, mas ao invés, surgiram muitos demónios travestidos de deuses que com os seus erros, abusos, impunidades e regalias, voltaram a semear a descrença e a nossa Liberdade ficou manchada pelas marcas dessa peste negra que continua a instalar-se no corpo doente da política.

30 Ago 2017 / 02:00 H.

A A descrença na classe política não é fruto destes anos de democracia portuguesa. O Portugal da Monarquia foi marcado, ao longo dos séculos, por contestações e revoltas populares contra os abusos sistemáticos daqueles que gozavam de um estatuto superior, graças às honrarias ou ao tão propalado sangue azul.

O Portugal da I República sofreu diversas convulsões, ocupando a Madeira um importante lugar de destaque no ranking dos agitadores descontentes do reino.

E até mesmo no Portugal da Ditadura, apesar das mordaças e do terror instalado, houve valorosos portugueses que ousaram levantar a voz contra um regime asfixiante. Depois veio o Portugal que conhecemos, o da Democracia, em que de repente o povo viu-se a braços com um valor chamado «Liberdade».

Surgiram os sucessivos governos, as diferentes forças partidárias, o desenvolvimento e o mundo entrou de forma avassaladora nas vidas dos portugueses.

Com a Liberdade a servir de camada protetora para as ações, fomos criando e alimentando certos demónios travestidos de deuses e de fadas madrinhas. Acreditámos que aqueles que se propunham a nos servir iriam colocar, acima dos seus interesses pessoais, o bem-estar social, porque, afinal de contas, é para isso que serve a política.

Ambicionávamos verdadeiros patriotas, mas ao invés, surgiram muitos demónios travestidos de deuses que com os seus erros, abusos, impunidades e regalias, voltaram a semear a descrença e a nossa Liberdade ficou manchada pelas marcas dessa peste negra que continua a instalar-se no corpo doente da política.

À nossa escala, pequenina escala, fechamos os olhos às sucessivas acrobacias dos tais demónios, exímios contorcionistas, adeptos de um só lema: levar a água ao seu moinho. O moinho não é comunitário, não é para ser usado por todos, mas pertence-lhes. Única e exclusivamente.

Donos e senhores brindados com honrarias (já que afinal o sangue é mesmo vermelho), montaram-se em diferentes máquinas para proteger as agendas pessoais, os interesses individuais, a ambição narcisista. Ou seja, tomaram de assalto os cargos para satisfazer a premente necessidade de um poder que corrompe e apodrece sistemas, sociedades, nações, ilhas.

A descrença aumenta quando percebemos que nos mentem de forma descarada. Ludibriar para vencer. Que honra existe em ser trapaceiro?

Mas no meio das confusões, no meio desta desconfiança avassaladora que nos tem afastado das urnas ano após ano, há que saber separar o trigo do joio. Há que entender que apesar das pestes negras que por aí abundam, nem todos sofrem do mesmo mal. Nem todos estão sujeitos a sucumbir perante as ameaças da inevitável doença do poder pelo poder.

Há que ter a lucidez para perceber que enquanto uns andam a gastar tempo em fazer uma campanha de acusações e queixinhas, há outros que de forma ponderada apresentam ideias, propostas concretas, fomentam diálogos e discussões porque não têm medo de ouvir o que o eleitor pensa e não induzem o cidadão a entoar “música para os seus ouvidos”.

Os tempos mudaram, é certo, mas há feudos que continuaram iguais. Regra geral, este é um sintoma de anos consecutivos de governação, de vitórias estrondosas do orgulhosamente sós. Os regimes que alimentaram vícios e que criaram verdadeiras sanguessugas, costumam dar sinais de um claro enfraquecimento quando se dividem pelos herdeiros que acabam sempre por declarar guerra uns aos outros, deixando antever a aproximação inevitável do fim dos tempos. Instala-se a confusão externa e interna e antes do previsível “salve-se quem puder”, surgem as tentativas desesperadas de inverter a situação. Socorrem-se de uma brigada de fanáticos (dignos candidatos a qualquer seita que se preze) para espalhar a propaganda. Em vez de panfletos, temos teclados e qualquer um está sujeito a ser alvo desses seguidores que, tal como os seus gurus, apenas tentam preservar as suas regalias.

O fim dos tempos é evidente. Os protestos espalham-se, as contestações surgem e até o escárnio ganha terreno nesta imagem de descrédito, onde o pó de arroz não faz milagres, apesar das sistemáticas tentativas de branqueamento.

A propaganda narcisista apenas serve para espalhar a mensagem sobre aquilo que eles próprios querem ouvir.

O Narciso está fraco e vai acabar por afundar-se nas areias movediças da sua quintinha.

Sónia Silva Franco