600 anos: 1 de Julho em Porto Santo

14 Jan 2018 / 02:00 H.

2018 completa 600 anos da presença portuguesa em Porto Santo. No ano seguinte o mesmo aniversário marca a chegada à Madeira. Pelo menos há quem acredite nestas datas. Poderão ser outras.

Para trás nada se sabe. Apenas existe a certeza de que outros já por aqui tinham passado ainda que, não fosse o sentido colonizador, foram os portugueses a ocuparem as ilhas. Quando cá chegaram pela segunda fez, em 1421 ou 1425, preparados para fixarem os primeiros colonos e iniciarem o povoamento, já depararam com frades franciscanos, náufragos e famintos, em Porto Santo, ilha assim denominada pelos castelhanos.

Toda a gente sabe da predominância do vento nordeste nesta região do Atlântico, que atira, de Portugal e do Mediterrâneo para o Porto Santo e Madeira, tudo o que venha empurrado pelo vento.

Muitos, certamente, cá vieram sem essa intenção descobridora. Se fenícios, gregos, cartagineses, romanos, viquingues e islâmicos navegaram nesta zona do Atlântico, muito antes dos portugueses, será certo que antecederam o nosso achamento.

Gosto da lenda de Machim e Ana. Era bom que tivesse sido verdade.

A ser assim, reconhecendo a primeira chegada portuguesa a Porto Santo em 2018, desde logo devemos celebrar o próximo dia 1 de Julho na Ilha homenageada. Com pompa e circunstância. Junto à praia, porque não na Praça do Barqueiro engalanada para o efeito, com a presença simbólica da nau Santa Maria, na falta da original ‘barca’. Um cenário seiscentista. Haja imaginação !

Em 2019, o mesmo em Machico.

Em ambas as datas é obrigatória a presença do nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Que virá, tenho a certeza.

Mas vamos agora à parte polémica do tema.

Uma coisa é a celebração de seis séculos de vida no Arquipélago, que amamos e por que lutamos ao longo de todo este tempo, outra coisa é ter a ver com a sua “descoberta” e colonização.

Chegar a Porto Santo e Madeira não foi um feito dos madeirenses. Nem existiam.

O nosso orgulho é o de resistirmos nestas Ilhas há tantos anos, gerações e acontecimentos naturais que quase nos mataram a todos. Ou, pelo menos, aconselharam os sobreviventes a abandonar estes rochedos e a recomeçarem noutras bandas. Muitos partiram.

É esta epopeia, épica e duradoura, que devemos celebrar. Nós próprios, em memória e homenagem aos que tornaram possível estarmos aqui agora e sermos o que somos.

Há muito sangue, suor e lágrimas na História destes 600 anos ! Como há muitas alegrias, conquistas e vitórias.

Celebrar tudo isto de forma digna, pomposa e exaustiva é obrigação que devemos assegurar. Festejar o achamento português é outra coisa, que cabe a Portugal no seu todo. Não a nós que até 1422, ou 1426, ainda não tínhamos nenhum madeirense nascido.

Os “descobrimentos” portugueses, que não são mais do que as datas em que os portugueses chegaram pela primeira vez a terras distantes, nunca sendo os primeiros, é uma saga que tem erguido o orgulho nacional. Foi precisa muita coragem para as realizarem. A primeira, fora da costa, foi o Arquipélago da Madeira e Porto Santo. Por isso é natural que quem realizou esse feito histórico o celebre de forma muito festiva.

Não sei se haverá assim tanta vontade para festejar esse primeiro passo colonizador. Fizeram-se grandes festejos de outros momentos da caminhada colonial, e estou recordando a passagem de Bartolomeu Dias, como primeiro europeu, pelo Cabo da Boa Esperança e a chegada ao Brasil por Pedro Álvares Cabral. As demais ocupações africanas e asiáticas enchem de vergonha a actual nomenclatura política nacional. Até alguns já pediram desculpas !

Por tudo isto fica a expectativa sobre a intensidade das comemorações em Lisboa, qual ex capital do império, pela sua primeira “descoberta”, a que, envergonhadamente, chamaram achamento.

Até para ouvir os seus discursos que, na sua covardia política, certamente tentariam entregar a madeirenses. Mas não é o dia de nós discursarmos em Lisboa. É a ocasião para ouvirmos, e registarmos, a leitura actual do achamento e ocupação territorial do Arquipélago por seis séculos. Do que fizeram e do que nos deixaram fazer !

De manhã na Assembleia da República, de tarde em Porto Santo !

Ao longo destes dois anos devíamos olhar para a verdadeira História da Madeira. Através dos jornais, televisão e rádio, para além de todas as novas redes de comunicação, temos de aproveitar o saber dos nossos historiadores para conhecermos mais sobre o percurso destes 600 anos. As teorias sobre o que não é certo e conhecido mas, sobretudo, o que é facto e não pode ser mudado.

Temos investigadores e estudiosos que nos podem preencher este tempo com a memória de tudo o que de bom e mau aconteceu neste tempo de resiliência heróica.

Miguel de Sousa
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