Dez anos depois, laboratório de sexualidade da U.Porto é “referência mundial”

20 Set 2019 / 01:23 H.

Dez anos depois de embarcar na “aventura” de criar o primeiro centro científico sobre sexo em Portugal, o diretor do Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana (SexLab) acredita que este se tornou “numa referência mundial”.

O primeiro laboratório científico português dedicado ao estudo da sexualidade humana nasceu há cerca de 10 anos, na Universidade de Aveiro, fruto de “um antigo sonho” do seu atual diretor, Pedro Nobre, que, em entrevista à Lusa, fez um retrato da sua evolução e da transição, em 2012, para a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).

Além de um “sonho”, Pedro Nobre, também presidente da Associação Mundial de Saúde Sexual (WAS), acredita que na época era “uma necessidade” ter um espaço onde fosse possível “testar hipóteses, manipular variáveis e estabelecer relações de causa/efeito”.

“Com o laboratório conseguimos criar um ambiente controlado, onde todas as pessoas passam exatamente pelos mesmos processos e são sujeitas ao mesmo ambiente”, frisou, adiantando, contudo, que o “arranque foi uma aventura”.

“O arranque foi de facto uma aventura porque era tudo novo, era o primeiro laboratório em Portugal e um dos poucos da Europa (...). Era uma novidade e uma incógnita. Não sabíamos qual ia ser a reação, se íamos ter voluntários e se, por outro lado, iam surgir grupos de pessoas que eram contra porque o laboratório era fruto de um investimento público”, lembrou.

E se o primeiro estudo realizado pela equipa do SexLab foi “relativamente genérico”, ao abordar as principais variáveis psicológicas que explicavam a resposta sexual, passados 10 anos os investigadores já publicaram 136 artigos científicos em revistas internacionais e 35 capítulos de livros.

Atualmente, o SexLab é composto por uma equipa de 20 investigadores, sendo que nos seus estudos já participaram mais de seis mil voluntários, dos quais 690 realizaram os testes neste pequeno laboratório que se divide em duas salas.

Pelo laboratório, além dos vários voluntários têm também passado várias temáticas, tais como a psicoterapia como tratamento para a disfunção erétil, o papel da atividade cerebral na resposta sexual, as agressões sexuais, a dor sexual feminina e até os fatores cognitivos da saúde sexual de pessoas com incapacidades físicas.

“Todas estas questões acabam por ter um grande impacto social”, afirmou, adiantando que a “aposta nos investigadores e nas suas ideias” permitiu que o laboratório se tenha tornado “uma referência mundial”.

“Nós já somos uma referência mundial, mas gostaria que, nos próximos 10 anos, consolidássemos ainda mais a nossa referência e colaborássemos em rede”, frisou.

Segundo o presidente da WAS, atualmente existem apenas dois laboratórios em Portugal que trabalham as questões relacionadas com a sexualidade humana: o SexLab e o Human Sex Lab, da Universidade de Lisboa.

Pedro Nobre acredita que, à semelhança do que acontecera com o laboratório, também as questões da sexualidade “mudaram muito nos últimos 10 anos”, especialmente no que aos “direitos sexuais” diz respeito.

“Foi um percurso muito positivo porque muita coisa mudou até em termos de legislação, houve uma liberalização muito grande e um conjunto de leis que concederam direitos em vários sentidos”, referiu.

No entanto, e apesar de afirmar que atualmente se fala “muito de sexualidade”, acredita que o tema nem sempre é “tratado de forma séria e rigorosa”.

“Fala-se muito de sexualidade, o que não se fala é sempre muito bem. A quantidade de programas que usa a sexualidade como tema, mas que não a trata de forma séria e com informação rigorosa e adequada, é muito grande”, concluiu.

À Lusa, o responsável revelou ainda que durante o dia de sexta-feira decorre nas instalações da FPCEUP o 2.º seminário internacional - programa doutoral em sexualidade humana, que tem como oradores o psiquiatra Francisco Allen Gomes, a professora Kaye Wellings e o ginecologista e psicoterapeuta Johannes Bitzer.

O seminário, que arranca às 09:30 e está previsto terminar às 18:00, conta ainda com o lançamento da Consulta de Saúde Sexual da Universidade do Porto.

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