Vestir a Roupa do Avesso

11 Mar 2019 / 02:00 H.

1. Livro: Gosto de livros com crónicas de viagens. Aprecio particularmente lê-los quando... em viagem. Na última que fiz li, em três fôlegos, “Paisagens da China e do Japão”, de Wenceslau de Moraes. Um livro delicioso sobre esse Oriente que tanto me fascina e que vou “conhecendo” de longe.

2. Guardo religiosamente a última sondagem publicada pelo DN. Não a sondagem que diz que os Cafofos vão ganhar, nem a que dá conta das competências e incompetências do Governo. A que me interessa verdadeiramente, pelas indicações que fornece, é a terceira que dá conta das razões que irão influenciar o voto dos madeirenses, em Setembro deste ano, nas eleições Autonómicas.

A primeira das quais é o simples desejo de mudança (34,80%). Isto, feita uma leitura mais para o leviano, tem que deixar preocupado o estado-maior do PSD e levar à euforia o do PS. E é assim porque ambos só enxergam o que vai do seu umbigo ao umbigo do adversário. Não me cansarei de dizer que PSD e PS não passam das duas faces da mesma moeda. Se Albuquerque derrotou, nas últimas eleições, a coligação(zinha) do PS, isso aconteceu porque prometeu “renovação” (assim a modos que uma espécie de mudança mais suave, uma espécie de marcelismo de “evolução na continuidade”). Não resultou em finais dos 60’s e claro que nunca resultaria agora. No final ficamos com esta “continuidade da continuidade”, onde o Presidente do Governo perdeu o papel de Rei e não passa de um peão feito bobo que manda muito pouco e já nem diverte a corte.

Do outro lado, recebem-se os que saltam a barricada e correm de braços abertos a acolher uma tal de mudança de paradigma. São quadros intermédios, alguns deles até detentores de alguma competência de conhecimento, que andaram a fazer papel de tontos, no meio dos medíocres que nos foram governando, para não darem nas vistas, o que seria sempre perigoso.

São também recebidos de braços abertos numa casa onde cabe de tudo, feita numa espécie de albergue espanhol. Para que nada mude, a não ser os protagonistas, apressaram-se a ir pedir aos Donos Disto Tudo que lhes dessem a “respeitabilidade” que é sempre tão necessária a quem se verga aos poderes dos interesses, que não os de todos, mas os particulares. Sejam eles políticos ou económicos. Fazem isto com toda a naturalidade de quem afinal sabe ao que vai. O Partido Socialista pode nunca ter estado no poder na Madeira e, mesmo assim, compreende bem, sem ainda lá ter chegado, o “know how” da “coisa”.

A escolha de Setembro não pode ser entre o mesmo e o mais do mesmo. Entre os que vestem uma roupa velha de 40 anos e os que a querem vestir do avesso, que é o máximo de mudança que conseguirão fazer.

Se efectivamente o eleitorado anseia por mudança que o faça descartando da equação estes dois partidos que não passam de um “par de rolhas” com os mesmos anseios, as mesmas políticas, o mesmo modo de actuação onde, se mudar alguma coisa, vão ser só as moscas.

Ah, e não se esqueçam que andam aí uns que não são uma coisa nem a outra. Ficam ali no meio a ver para onde sopra o vento, depois de aprovarem estratégias onde reconhecem que vão ser pequeninos, onde se remetem para um papel secundário quando foram líderes da oposição. Fazem tábua rasa de toda uma história e de gentes que os deviam orgulhar.

Outra parte do eleitorado elege os programas de governo propostos como a razão que os fará decidir (21,50%) o que indicia um eleitor mais exigente que votará no partido que decidir ter as melhores propostas para a governação. Gosto desses eleitores. Votem eles onde votarem.

Só depois, e com pouco mais de 17%, aparecem as qualidades dos cabeças de lista, seguida da idoneidade dos candidatos a deputados, com 12,20%. Ou seja, só 29% dos eleitores consideram a fulanização como factor determinante. No fim da lista, fica o borralho: os trunfos usados na campanha (3,20%), seja isso lá o que for.

Tenho desta sondagem uma leitura de um povo que começa a caminhar para a sua maturidade, porque mais exigente. Pelo respeito que todos os intervenientes temos que ter por este povo, que os debates e as campanhas se façam com serenidade e elevação, visando o esclarecimento de quem vai votar, de modo a que estes possam exercer o seu direito de voto (que também é um dever) em liberdade e consciência.

Tenham os eleitores bem presente que “se pagam em amendoins, recebem em macacos”.

3. Vivi, estes 58 anos que carrego, rodeado de mulheres. As minhas avós, a minha mãe, as minhas filhas, as minhas irmãs, as tias, as sobrinhas, as primas, as mulheres que amei e a que amo, as muitas amigas. Não demorei muito a perceber que homens e mulheres são intrinsecamente diferentes. Demorei mais tempo a entender que há coisas que não valem a pena discutir.

Carrego comigo a diferença cromossomática que faz de mim um homem, mas educado por tantas e tão boas mulheres não renego o meu cromossoma X e tenho nele muito orgulho.

Não entendo a violência. Nenhuma forma de violência, venha de onde vier, manifestada seja lá por quem for. Saber que, no início de Março, já foram mortas em Portugal 13 mulheres em casos de violência doméstica é assustador, é avassalador.

Eis-nos chegados a um momento em que só a solidariedade não chega. É chegado o momento de assumirmos a civilização de que pretendemos fazer parte. Temos de ser mais pró-activos, mais intervenientes, de modo a evitar esta violência inconcebível. Não podemos como sociedade permitir que isto continue a acontecer, porque qualquer forma de violência por mais pequena que seja é uma maneira de reduzir e condicionar a liberdade.

É na educação que está o mais forte antídoto contra o estado a que chegámos. Educação em casa, na escola, na rua, nos locais onde trabalhamos, entre os amigos com que nos damos.

Denunciar casos de violência é um acto de civilidade, de cidadania.

E uma justiça célere. Uma justiça que rapidamente investigue e julgue. Uma justiça que permita, às vítimas, um começar de novo em paz e tranquilidade.

No dia 7, fez-se o luto. Que daí em diante sejam dias de actividade em defesa dos direitos da mulher. Direito à integridade, ao salário igual, à autonomia e liberdade, à educação e ao trabalho, à protecção da maternidade, à dignidade, à plena igualdade, à participação política, ao fim da estereotipação, etc..

O dia 8 de Março, foi o Dia Internacional da Mulher. Que sejam criadas as condições efectivas para que esse dia se prolongue por todos os dias do ano.

4. Nas últimas semanas correram notícias de “bullying” ocorrido em escolas da Madeira. Uma das principais tarefas de todos, pais, alunos, professores, gestores escolares, responsáveis pela educação, é criar as condições para que isto não aconteça.

No “bullying” não há agredidos e agressores. Todos são vítimas. Achar que culpar e castigar quem agride é a solução, não é resolver o problema. É empurrar com a barriga, até sermos todos agredidos por mais uma notícia que nos confronte com um problema em que todos temos culpa. Persistimos em confundir libertinagem com liberdade e os resultados estão à vista. Esvaziar a autoridade, seja na família, seja na escola, não resulta automaticamente em mais liberdade. Resulta, isso sim, nesta porcaria que vemos à nossa volta: no desrespeito pelo outro.

5. Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças!

As pirâmides que novamente construíste

Não me parecem novas, nem estranhas;

Apenas as mesmas com novas vestimentas.

William Shakespeare

Nuno Morna

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