Não era costume...

Nós, os lá de cima, do fim da carreira 12, também sabíamos distinguir o que era moderno, só não estávamos habituados a viver com mais do que era preciso.

17 Mar 2019 / 02:00 H.

A década estava acabar e, no Laranjal, o moderno misturava-se com o de sempre. O ‘Folha’ fazia o caminho debaixo de um molho de erva, seguido por uns quatro cães e a miudagem dos carrinhos de rolamentos passava a tarde a descer e a subir a curva nos intervalos do autocarro que, de meia em meia hora, guinchava ao travar na paragem. Eu dividia o tempo entre as aulas e os livros, não os de estudar, mas dos outros que, de mês para mês, aumentavam de número na prateleira do móvel novo da sala.

A minha mãe comprou o móvel – que ia de uma ponta à outra da parede - com o dinheiro da comissão dos bordados, era a imitar madeira de pinho e tinha lugar para tudo. Para os copos, a loiça, o faqueiro, gavetas para arrumar a papelada e para os meus livros. Lembro-me do sorriso da minha mãe por ter uma sala onde recebia as mulheres dos bordados. Não havia outra expressão para designar aquelas senhoras, quase todas de meia idade, que rodavam lá por casa para ir entregar trabalho, receber o dinheiro ou tirar dúvidas dos pontos.

Era outra coisa, ter assim a sala arranjada com o móvel novo onde também se conseguiu meter a televisão. As coisas modernas eram boas por isso, eram práticas e a minha mãe gostava muito disso, das coisas práticas. Da roupa que dava para ir à missa, a um casamento, ao médico e a todos os lugares que fosse preciso ir, dos sapatos que condiziam com todas as roupas, dos cortes de cabelo que não exigiam muito cuidado, das cores que nunca passavam de moda, dos tecidos fáceis de passar a ferro, de tudo o que fosse bonito e durasse pelo menos uns 10 anos.

O móvel resumia este espírito e, à luz da época, era bonito, aquela luz para iluminar os copos nas prateleiras de vidro dava-lhe um toque elegante. Pelo menos parecia-nos, era um luxo. Não era costume e estávamos todos mais ou menos deslumbrados com os dourados dos candeeiros, as bandejas de casquinha, os copos de cristal, as jarras de porcelana chinesa e, como tínhamos um móvel, também fomos a uma loja que havia ali no Centro Comercial Tavira comprar bonecos para enfeitar os espaços vazios.

O moderno era isto. Ou melhor, era isto e tudo o que se via pela vizinhança. Os carros de segunda da mão estacionados no caminho, era melhor de que ir de horário, de pé, aos solavancos, entre os pequenos da escola ou dividir o banco com quem ainda levava o almoço para o trabalho. Os casamentos à pressa, com uma gravidez disfarçada pelo modelo do vestido, já não causavam escândalo e as festas deixaram de se fazer no quintal, com o quarto das ofertas e a festa da cama dos noivos, que era assim uma espécie de despedida de solteiros. E apareceram as listas de casamento, o que a minha mãe achou bem, que assim não tinha de matar a cabeça com o que se devia oferecer.

As lojas vendiam outros produtos, da quinquilharia de decoração à roupa mais barata dos Armazéns do Carmo, que bem cuidada fazia a mesma vez e sempre dava para variar. E jantar fora numa pizzaria era uma extravagância, um desafio ao nosso paladar que, nos dias de festa, se deliciava com galinha no forno. Uma excentricidade pelo menos para a minha mãe, que ficou fascinada quando lhe contei do queijo derretido e dos cogumelos. Tanto espanto só quando liguei de Lisboa para falar de um passeio a Cascais e de um almoço num restaurante chinês, o que se riu do porco agridoce, aquilo não podia ser comer de jeito.

O tempo haveria lhe dar razão, mas estávamos em 1989, chegava dinheiro todos os dias da CEE e tínhamos todos um desejo muito grande experimentar o que nunca tínhamos tido: videogravadores, carros novos, roupas bonitas, festas de casamento com salão de dança e fotografias nos jardins de um hotel, móveis a reluzir e jantares fora com uma voltinha pela marina, só para ver os barcos e dizer que existíamos. Nós, os lá de cima, do fim da carreira 12, também sabíamos distinguir o que era moderno, só não estávamos habituados a viver com mais do que era preciso.

Marta Caires

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