Crónicas

Comer gelados com a testa

A partir de hoje, mudo-me para as segundas-feiras. Só vos peço condescendência para com o que aqui escrevo e a benevolência que me têm dado às terças-feiras

1. Disco: façam-vos um favor e vão ouvir o disco, que creio de estreia, da espanhola Rosália. Dá pelo nome de “El Mal Querer” e, para quem gosta de fusão do tradicional com o contemporâneo, é obrigatório.

2. Livro: embora centrado no caso americano, “Como Morrem as Democracias”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, está eivado de pistas e leituras perfeitamente aplicáveis ao que se passa ao nosso lado. Leitura obrigatória para quem gosta de actualidade política.

3. A partir de hoje, mudo-me para as segundas-feiras. Reformulação organizativa do Diário a isso obriga. Ao contrário da maior parte das pessoas, não tenho nada contra este dia da semana. Talvez porque durante toda a minha vida trabalhei por turnos. Mas entendo a embirração. Só vos peço condescendência para com o que aqui escrevo e a benevolência que me têm dado às terças-feiras.

4. Já corria nos “mentideiros” da política regional que Liliana Rodrigues não seria recandidata nas listas do PS, nas próximas eleições europeias. Que fique desde já claro que sou amigo da Liliana e tenho por ela admiração e estima. Pessoa competente, dedicada, conhecedora, empenhada. Senhora do seu nariz, já tive com a Liliana discussões dignas de qualquer antologia do debate.

Logo à partida, o PS Madeira que prescindiu de a voltar a propor, não percebeu que o capital político que a eurodeputada tem é raro na Madeira. Conhece os cantos de uma casa complicada ao nível dos procedimentos e modos de actuação.

Diz-se que o PS queria fazer do seu gabinete de apoio no PE um centro de emprego, assim a modos como fez com a Frente Mar... Diz-se que no PS houve quem ficasse indignado pela Liliana ter posto a andar alguém que falsificou as suas habilitações... que não aproveitava para contribuir para os cofres do partido... que tem familiares na área do PSD... e porque será que nada disto me admira, vindo de onde vem?

Tenho para mim que a minha amiga Liliana é agora, politicamente, uma mulher sozinha. Sozinha depois de tanto ter dado a quem, ingratamente, assim lhe agradece.

Tenho alguns contactos na minha família politica no PE que me dizem da competência da minha amiga, independentemente de ser socialista. As competências de cada um não se medem ideologicamente. Pelo menos, na minha casa.

O PS Madeira propõe Sara Cerdas para o lugar. Sem dúvida que tem um excelente currículo... mas currículo não paga experiência. Currículo é, no máximo, algum conhecimento e neste caso muito específico. Gosto muito mais de quem sabe pouco de muitas coisas do que de quem sabe muito de um assunto.

Não faço nem ideia de quem é a candidata. E como eu deve ter ficado a esmagadora maioria dos madeirenses. Trocar uma pessoa com provas dadas e com trabalho meritório feito num local com particularidades muito específicas por alguém que vai demorar uns dois anos a conhecer os cantos à casa, não tem sentido nenhum. Mas esta é só a minha opinião e vale o que vale.

Este comer gelados com a testa do Partido Socialista da Madeira já não diverte. É triste. Independentemente das cores políticas dos meus, há deles onde reconheço méritos e gosto de os ver a desempenhar funções onde os interesses da Madeira prevaleçam sobre os político-partidários. E este era o caso.

Mas bem vistas as coisas, e sendo adversário político do PS e de tudo o que ele representa, só posso ficar satisfeito com a exclusão.

Como sempre e em democracia, caberá aos madeirenses a escolha.

5. Na quinta-feira passada, realizou-se um debate potestativo sobre a Saúde, a pedido do Partido Socialista. Dado o estado em que a nossa Saúde está, eu acho que devia haver debates potestativos, de urgência, temáticos, de actualidade, etc., todos os dias, no que respeita a este assunto.

Mas debates sérios. Debates onde a Saúde não servisse de arma de arremesso de uns contra os outros. Escrevi aqui, a semana passada, que as pessoas estão fartas. E estão mesmo. Muito.

Foi muita gente que me deu conta disso. Por mensagem, abordando-me na rua, deram-me conta de como a política regional se lhes afigura como algo de insuportável.

A Saúde, e fiquemo-nos por aqui, tem de ser debatida com seriedade. E essa seriedade não se coaduna com acusações de um lado para o outro, como se de um jogo de ténis se tratasse. “Que aqui é melhor que em Lisboa”, “que nos Açores gastaram mais dinheiro”, “aprendam com o que se fez no SNS”, e, “at last but not least”: “nós fomos o partido que mais projectos de resolução apresentou sobre este tema”.

Tudo treta, tudo conversa de chacha, tudo paleio para encher chouriço. O que estes senhores deviam estar a debater era a necessidade de se estabelecer um consenso interpartidário no sentido de que se estabeleça um pacto para a saúde de modo a que, de uma vez por todas, se transforme a Saúde num não-assunto. Reformular o SRS não é trabalho que se consiga fazer em quatro anos que é o tempo de um ciclo eleitoral. Enquanto este paradigma não for alterado, é o mesmo que querer meter o Largo do Colégio naquela rua pequenininha que há ao lado do Banco Madeira. E o que irrita é que esta gente sabe disso. Só por falta de vontade política, por pura politiquice barata, é que se não chega a um acordo alargado que permita, pelo menos, o prazo de duas legislaturas para resolver os problemas da nossa Saúde.

Os madeirenses não querem saber de projectos de resolução que não são mais do que um arrazoado a propor que alguém faça algo e que, na sua esmagadora maioria, ficam dentro das gavetas.

Sentem-se e assumam um acordo para uma Lei de Bases para o Serviço Regional de Saúde, que no prazo de oito anos o reforme, estabilize, o ponha funcional e ao serviço da boa saúde de todos. Mostrem que a política é a arte do compromisso ao invés de ser a arte do arremesso de argumentação balofa.

6. Na sexta-feira abriu este matutino com a notícia, esta já velha, que nas contas da CM do Funchal, no último mandato PSD, ele foram swaps e afins sem aprovação da Assembleia Municipal e coisa. Ou seja, mais trafulhice e ilegalidades. E, mais uma vez, a culpa vai morrer solteira, porque o amigalhaço António Costa e os seus parceiros fizerem aprovar uma lei que ainda antes de o crime o ser já o não é. Governantes nacionais e regionais e autarcas não podem ser, sequer, multados por gestão danosa comprovada. E assim continuam as coisas no reino da parvónia! Foi por estas e por outras que levantei o rabo do sofá. Ninguém é responsável, ninguém é responsabilizado, a impunidade tem cobertura legal. CHEGA!!!

7. Sou cristão. Sem rito. De vez em quando vou à missa. Uma missa muito minha que até pode ocorrer numa igreja vazia. Numa das últimas, no confessionário, a lufa-lufa de quem se confessa. Acho a confissão com intermediário uma coisa sem sentido. Como se a pessoa precisasse que alguém lhe apagasse, de viva voz, a culpa. A confissão é um acto de desresponsabilização. O sacudir a responsabilidade é uma marca cultural civilizacional que nos trava. Que não nos permite concluir do erro e corrigi-lo!

8. “O que é o paradoxo? Uma palavra que os tolos inventaram para a aplicar a tudo o que ouvem pela primeira vez. Para Adão, tudo seria paradoxo, ou melhor, nada o seria” – Miguel Unamuno