Famílias Portuguesas – sem coração ou com grande falta de dinheiro?
Nas minhas aulas de Microeconomia explico aos alunos que as famílias têm que tomar as suas decisões tendo em conta as suas preferências e as escolhas que lhe estão acessíveis, sendo que, por razões de simplificação, normalmente só apresento as restrições financeiras como fator para decidir se uma escolha está acessível. Deste modo a família tem que escolher uma alternativa que pode suportar financeiramente.
O Barómetro da DECO, recentemente divulgado (1), vem confirmar aquilo que muitos já sabíamos: grande número de famílias vive em situação de pobreza e a maioria das famílias tem muita dificuldade a fazer face às despesas correntes da sua vida. Assim, a título de exemplo, quase 60% dos inquiridos tem dificuldade em fazer face às despesas com óculos e aparelhos auditivos ou às despesas com a habitação, sua manutenção e pagamento da água e luz.
Estas famílias têm uma capacidade quase inexistente para enfrentarem situações de custos acrescidos nas suas vidas, por isso os que não se encontram nesta situação devem fazer um esforço de empatia com elas e colocar-se no seu lugar.
Conhecendo a realidade das famílias portuguesas, costumava explicar aos futuros médicos quando lecionava a cadeira de Economia da Saúde no curso de Medicina da nossa Universidade que não podemos continuar a ter pacientes, muitas vezes idosos, a decidirem na farmácia quais os remédios que vão comprar porque não têm dinheiro para todos. O médico, os serviços de saúde, os serviços sociais devem ter em conta esta situação e tentarem encontrar formas de dispensa de remédios que permita todos terem acesso à medicação que necessitam. Isto pode ter um custo acrescido para o Estado no presente mas trará poupanças no futuro que são os custos de os pacientes não terem tomado as medicações que necessitavam.
De igual modo, dada a situação das famílias portuguesas, parece-me que estar a pedir às famílias que assumam quase todos os custos com os seus idosos, os quais têm rendimentos muito reduzidos em relação às despesas que a família tem que enfrentar para cuidar deles, é uma falta enorme de conhecimento das suas possibilidades financeiras ou, pior, uma falta de conhecimento dos custos que certas situações de envelhecimento implicam. Acredito que seja possível fazermos movimentos de Pareto (2), ou seja, encontrar soluções em que o Estado e as famílias podem ver a sua situação melhorada através de um modo diferente de encarar o papel do Estado que o
faça transferir recursos para a família de maneira a que estas possam cuidar dos seus idosos poupando o Estado nos gastos diretos com estes mesmos idosos.
Creio que quase todas as famílias querem ver os seus idosos bem, por isso não as tratem como marginais sem coração quando a sua falta de coração não é mais do que uma grande falta de dinheiro!
1)https://www.deco.proteste.pt/familia-consumo/orcamento-familiar/noticias/barometro-deco-proteste-300-mil-familias-portuguesas-vivem-na-pobreza#
2) Movimento de Pareto (Economista Italiano 1848-1923) – passagem para uma situação em que um agente económico fica melhor e nenhum outro agente fica pior.