A geração celofane
Parece resistente e flexível, mas na prática é tão vulnerável e instável
Gostei muito de ver há dias alguns dos nossos jovens saírem à rua para protestar contra as alterações climáticas. Gostei, mas não fiquei convencida do altruísmo da ação pois não sei se espelhou a consciência cívica de um flagelo que, a olhos vivos, se abate sobre a humanidade ou se, perdoem-me a amargura do desabafo, foi apenas uma escusa nobre para antecipar o fim de semana.
Não, não precisam de apedrejar esta alma que se atreve a expor publicamente a sua falta de romantismo urdida em anos e anos de partilha do seu dia a dia com jovens dos mais diversos quadrantes que, verdade seja dita, lhe têm dado as maiores satisfações, mas também as mais frustrantes deceções. É que isto de ser professor, de facto, nos abre portas insondáveis do ser humano, colocando-nos frente a frente com o futuro personificado numa juventude tão paradoxal quanto os tempos em que vivemos. É, aliás, esse lugar de espetadores privilegiados da condição humana em pleno processo de formação que nos permite, a mim pelos menos, testemunhar aquilo que filósofos contemporâneos como Lipovetsky apelidaram da “era do vazio”. A expressão, excecional na minha humilde opinião, traduz na crueza metafórica do vazio aquilo que, efetivamente, nós, adultos, inconscientemente e com a melhor das intenções, estamos a criar – uma espécie de geração celofane que, tal como o papel a que faz lembrar, parece resistente e flexível, mas na prática é tão vulnerável e instável. A analogia, na verdade, ocorre-me assim, instantaneamente, quando penso na dualidade destes jovens que, por um lado, linguarejam num vernáculo (subentenda-se o eufemismo) digno de enrubescer o mais despudorado ouvinte e, por outro, ficam em estado de choque perante uma voz mais assertiva, atingindo, num ápice, o Evereste em picos de ansiedade. Jovens que deslizam, literalmente, pelas aulas numa indiferença assustadora traduzida na lógica da fuga para a frente. Jovens que não reconhecem a autoridade, confundindo-a com violação de direitos. Jovens que, presos aos écrans dos telemóveis, embrutecem sem qualquer pejo nem remorso ou, de ego inflamado por notas inflacionadas, não sabem que a humildade é o patamar do conhecimento.
Chamem-lhes milleniannls, centennials, nativos da tecnologia, tudo. Eles são isso tudo. Bons miúdos, também. E também epidermicamente hipersensíveis e superprotegidos e inconsequentes e frágeis.... Nós os fizemos assim. Porque lhes criamos um mundo à sua medida onde todos estão ao seu serviço e eles não estão ao serviço de ninguém. Fizemos-lhes tudo fácil e descartável, sem sacrifícios nem obrigações. Infantilizámo-los a longo prazo. Abrimos-lhes mil e uma possibilidades, enfraquecendo-lhes a vontade própria e a determinação ao mesmo tempo que lhes instauramos a total confusão nas cabeças. Amortecemos-lhes com desculpas piedosas os mais pequenos fracassos, imputando sempre os seus erros a terceiros e a nós próprios. Desdramatizámos-lhes as asneiras, dramatizando a seu favor os efeitos das suas consequências. Descobrimos-lhes, em suma, a impunidade e o verdadeiro significado da inconsequência, forçando-os, mais tarde, quando o mundo real os receber, a crescer da pior maneira. Fizemos isso sem querer, mas fizemo-lo. Nós, a família, a escola, o próprio sistema.
Por isso, não sei se há dias os miúdos saíram à rua para protestar contra os responsáveis pelas alterações climáticas porque têm consciência da catástrofe nelas latente ou se o fizeram, simplesmente, porque foi algo “giro” de se ver, “tipo” o que se faz lá fora, que, além de alongar o fim de semana, ainda rendeu umas quantas selfies para “postar” no “Instagram”. O que foi, de facto, só o amanhã o saberá.