Onde anda o bom senso?

10 Mar 2019 / 02:00 H.

1. José Barros Moura, referência da vida partidária nacional até falecer, em 2003, após quase três décadas de militância comunista e de uma socialista, tinha uma crónica, na década de 1990, no Diário Económico, que começava sempre com a mesma frase, retirada da ‘Feira Cabisbaixa’, de Alexandre O’Neill: “País onde qualquer palerma diz - Não, não é para mim este país!”.

Apesar de o jornal já não existir nem o autor, nunca estas palavras me vieram tantas vezes à cabeça, como nos últimos tempos. Por variadas razões, mas muito especialmente por estarmos numa época em que a generalidade emite opinião sobre tudo e sobre todos. Com ou sem fundamento, o que é arrepiante, importa falar, julgar, sentenciar. A ditadura das redes sociais, aproveitada largamente por quem tem responsabilidades é um pasto fértil sem balizas, nem limites. Há muito que os ‘treinadores de bancada’ deixaram de se limitar ao comentário amorfo sobre os jogos de futebol, sobre o golo que foi validado e não deveria ter sido. A torrente galgou os muros e a opinião sobre tudo e sobre todos abunda à velocidade de cada actualização.

Sabíamos que em ano eleitoral o ambiente se iria extremar. O que não é aceitável é que pessoas com obrigações públicas entrem no jogo da propaganda interesseira, deturpadora e no campo da maledicência. Não acredito em homens providenciais, dos que se gabam de ter razão antes do tempo e que pregam ‘verdades’ num só sentido. Receio os que não gostam nem toleram a crítica aberta, construtiva, fundamentada e que só conseguem enxergar os méritos das suas medidas, das suas escolhas, das suas opções. Receio os que convivem mal com a imprensa livre, com a opinião desabrida, com o artigo que não leva a foto desejada. (No governo de Passos Coelho, havia um secretário de Estado do CDS que só passava informações para os jornais em troca de também ser publicada uma determinada fotografia da sua pessoa. Saiu de cena e o que ficou para memória futura, nos media, foi a sua obsessão narcisística). Exemplos, infelizmente, não faltam nos dias de hoje.

Muitos perderam a vergonha e deixaram cair a máscara. E como em ano de eleições é o vale tudo, há que lançar a confusão para conquistar o eleitor. Mesmo que isso englobe meias-verdades, algumas ‘inverdades’, que é a definição light de mentira, dizer hoje e desdizer amanhã e baralhar os números reveladores de uma realidade não tão brilhante como a desejada.

Desengane-se o leitor se julga que isto é exclusivo deste ou daquele grupo, deste ou daquele partido. É transversal, para mal dos nossos pecados. É preciso permanecer de atalaia. Não baixar a guarda. O bom senso, o equilíbrio e a tolerância democrática andam arredados do nosso meio. É necessário que regressem aos nossos dias. Caso contrário, a frase de O’Neill, parafraseada semanalmente por Barros Moura nos idos de 90, manterá uma actualidade pouco higiénica.

2. Quantas mulheres já desempenharam o cargo de secretárias regionais? Quantas deputadas existem na Assembleia Legislativa? Quantas já se candidataram à presidência do Governo? Quantas lideram as maiores empresas, as maiores associações?

Na última semana falou-se muito das mulheres, dos seus direitos, da violência a que estão sujeitas e da falta de oportunidades que lhes são concedidas. Enquanto circunscrevermos o debate a uma semana do ano, não saímos daqui. Por mais leis que se façam enquanto a mentalidade reinante não mudar as mulheres serão sempre o elo mais fraco da nossa sociedade.

Roberto Ferreira