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Papa alerta para ressurgimento dos nacionalismos, abusos sexuais de menores e crise na Venezuela

FOTO Reuters
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O papa expressou hoje a sua preocupação com o ressurgimento de tendências populistas e nacionalistas nas relações internacionais, algumas das quais “evocam o período entre guerras”, num discurso dirigido ao corpo diplomático credenciado no Vaticano.

“A comunidade internacional e o sistema multilateral no seu conjunto estão a passar por tempos difíceis com o ressurgimento de tendências nacionalistas que minam a vocação das organizações internacionais de serem um espaço de diálogo e encontro para todos os países”, afirmou Francisco.

“Algumas dessas atitudes evocam o período entre guerras, no qual tendências populistas e nacionalistas prevaleceram sobre a acção da Liga das Nações”, acrescentou.

Francisco observou que “o reaparecimento de correntes semelhantes está progressivamente a enfraquecer o sistema multilateral”.

O papa disse estar preocupado com “o ressurgimento da tendência de fazer prevalecer e perseguir os interesses de cada nação sem recorrer aos instrumentos que o direito internacional prevê para resolver tais controvérsias e garantir o respeito pela justiça, também por meio de tribunais internacionais”.

Francisco apelou para que “na actualidade não falte a vontade de um diálogo sereno e construtivo entre os Estados” e atribuiu as dificuldades, em parte, a “certa incapacidade do sistema multilateral de oferecer soluções efectivas às várias situações que há muito estão pendentes de resolução”.

Também criticou alguns líderes quando disse que as políticas nacionais são “condicionadas cada vez mais e com mais frequência pela busca de um consenso imediato e sectário, em vez de buscar pacientemente o bem comum com respostas a longo prazo”.

“Em particular, é também o resultado da crescente preponderância de poderes e grupos de interesse em organizações internacionais que impõem suas próprias visões e ideias, desencadeando novas formas de colonização ideológica, que muitas vezes não respeitam a identidade, a dignidade e a sensibilidade das pessoas”, sublinhou.

O papa considerou oportuno que “os políticos escutem a voz do seu povo e busquem soluções concretas para promover o bem maior”, pois os cidadãos muitas vezes sentem que as suas necessidades reais não estão a ser atendidas.

Papa diz que Igreja esta empenhada em combater abusos sexuais de menores

Esta segunda-feira, o papa Francisco disse também que a Igreja está empenhada em combater o abuso sexual de menores, o que considera ser “um dos crimes mais vis e mais nocivos”.

“Não posso permanecer em silêncio diante de uma das pragas do nosso tempo, e que, infelizmente, também tem implicado vários membros do clero. O abuso de menores é um dos piores e mais vis possíveis crimes”, disse o papa, durante um encontro com o corpo diplomático acreditado no Vaticano.

Esta declaração surge depois de 2018 ter sido um ano marcado pela revelação de uma série de escândalos de abusos sexuais do clero, especialmente nos Estados Unidos e no Chile, e no dia em que começa o julgamento do cardeal francês Philippe Barbarin, acusado de ter escondido o passado pedófilo de um padre.

Esses abusos “varrem, inexoravelmente, o que a vida humana reserva para uma pessoa inocente, causando danos irreparáveis para o resto da vida”, disse o pontífice argentino.

“A Santa Sé e toda a Igreja comprometem-se a lutar e a prevenir tais crimes e a sua ocultação, a estabelecer a verdade dos factos em que os eclesiásticos estão implicados e a fazer justiça aos menores que sofreram violência sexual, agravada pelo abuso de poder e consciência”, acrescentou o papa.

Em 21 de Dezembro, nas suas saudações anuais à Cúria Romana (o governo da Santa Sé), o papa já tinha prometido não deixar impunes as “abominações” na Igreja.

O papa convocou os presidentes de conferências episcopais de todo o mundo para uma cimeira sobre “protecção de menores”, a realizar no final de Fevereiro de 2019.

Para se preparar, os participantes deverão encontrar-se, nos seus respectivos países, com vítimas de abuso sexual por parte do clero.

Esta reunião “pretende ser um passo no caminho da Igreja, para esclarecer os factos e suavizar as feridas causadas por tais crimes”, disse o papa.

Papa pede que sejam resolvidos os conflitos vividos na Nicarágua, Venezuela e Síria

O papa recordou ainda hoje que a Nicarágua, a Venezuela e a Síria ao recordar as várias crises no mundo e desejou que esses países possam resolver os seus problemas através do diálogo e de meios pacíficos.

“Penso particularmente Nicarágua, cuja situação sigo de perto, com a esperança de que as diversas instâncias políticas e sociais encontrem no diálogo a estrada principal para se empenharem pelo bem de toda a nação”, disse Francisco, num discurso ao corpo diplomático credenciado no Vaticano.

O papa sublinhou que “o Vaticano não pretende interferir na vida dos Estados” e disse que o seu objectivo é “colocar-se ao serviço do bem de todo o ser humano” e trabalhar “para promover a construção de sociedades pacíficas e reconciliadas”.

Francisco também desejou “para a amada Venezuela, que se encontrem meios institucionais e pacíficos para resolver a crise política, social e económica em curso”.

“Vias que permitam ajudar, especialmente, aqueles que são testados pelas tensões destes anos e oferecer ao povo venezuelano um horizonte de esperança e paz”, acrescentou.

Sobre a situação da Venezuela, agradeceu “à Colômbia, que, juntamente com outros países do continente, nos últimos meses tem recebido um grande número de pessoas da Venezuela”.

“Não posso deixar de agradecer os esforços de muitos Governos e instituições que, impulsionados por um generoso espírito de solidariedade e caridade cristã, colaboram fraternalmente a favor dos migrantes”, disse.

O papa recordou ainda uma antiga intervenção de Paulo VI na ONU e as suas palavras: “Nunca jamais a guerra! É a paz, é a paz que deve guiar o destino dos povos e de toda a humanidade”.

Francisco também recordou as vítimas das guerras no mundo, especialmente na Síria, e pediu uma solução para “um conflito que não terá mais do que vencidos”.

“Mais uma vez, apelo à comunidade internacional para que promova uma solução política para um conflito que no final não terá mais do que vencidos”, afirmou.

Francisco observou que a Síria e todo o Oriente Médio têm sido palco de conflitos de múltiplos interesses opostos, incluindo “a tentativa de criar inimizade entre muçulmanos e cristãos”.

As viagens que Francisco fará este ano a países de maioria muçulmana, Marrocos e Emirados Árabes Unidos, serão, segundo o papa, “duas ocasiões importantes para aumentar ainda mais o diálogo inter-religioso e o entendimento mútuo entre os fiéis de ambas as religiões”.