‘Coletes amarelos’ é movimento inédito, apolítico e motivado pelo ‘autismo’ de Macron

Paris /
08 Dez 2018 / 05:01 H.

O movimento dos “coletes amarelos” é “inédito” e representa o descontentamento crescente das classes média e baixa francesas, justificando assim, que apesar da violência, recolha ainda a simpatia da maior parte da população, disseram à Lusa vários analistas.

“A originalidade deste movimento está no facto de ilustrar uma nova forma de socialização militante local, que eu chamo a socialização da rotunda, com novas formas de coordenação da sua ação através das redes sociais”, disse à agência Lusa Gérard Noiriel, sociólogo e diretor de estudos da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales).

Os “coletes amarelos” coordenam-se maioritariamente através das redes sociais como Facebook ou WhatsApp, travando conhecimento pessoal nos dias dos bloqueios das estradas no interior de França ou em protestos maiores, como os que têm acontecido em Paris nos últimos sábados e se deverá repetir já amanhã. Mas não é só isso que os distingue.

“Estamos perante um movimento inédito. Tanto na forma como apareceu, como na sua composição social, já que é composto por profissionais liberais, mas também por trabalhadores por conta de outrem. E há ainda o facto de se recusar a ter um enquadramento político ou até mesmo legal, já que as suas manifestações não são pré-autorizadas”, afirmou Danielle Tartakowsky, historiadora dos movimentos sociais franceses.

A independência de qualquer força políticas pode ser uma das principais razões para o apoio generalizado dos franceses ao movimento dos “coletes amarelos”.

Mesmo após a violência das manifestações em Paris, 66% dos franceses inquiridos por uma sondagem Ifop para a CNews e a Sud Radio dizem apoiar os “coletes amarelos”.

“Este movimento traz uma dupla fratura, territorial e social, que é muito profunda e que toca a maioria dos franceses. E é também apolítico, o que permite a muitos franceses uma identificação já que não há a barreira da ideologia política. Tanto as pessoas de esquerda como de direta podem apoiá-lo”, referiu Jean Garrigues, professor de História Contemporânea na Universidade de Orleães e presidente do Comité de História Parlamentar e Política.

Outro ponto de convergência entre a população em geral e quem se vem manifestar à capital, é o desagrado com a ação do Governo e, especialmente, com o Presidente.

Emmanuel Macron conta agora com o apoio de apenas 18% da população, segundo uma sondagem do YouGov para a CNews et o Huffingtonpost, publicada esta semana.

“O fosso entre as elites e as classes populares é, desde há alguns anos, cada vez maior. Mas o programa ultra liberal de Emmanuel Macron, a brutalidade com que quis impor as suas políticas e os seus objetivos que muitas vezes desprezam as pessoas dessas classes, só veio acentuar este divórcio”, disse Gérard Noiriel.

Danielle Tartakowsky considera também que os problemas que levam os coletes amarelos à rua “não começaram ontem”, e assentam no desgaste do modelo social francês que ainda não foi capaz de encontrar um novo compromisso, associado ao “autismo” do Presidente.

“É a afirmação de raiva contra a perda de todas as conquistas sociais. Há, por um lado, o claro descontentamento com a ação dos sindicatos, que perderam várias lutas nos últimos anos, e um Governo que pensa que pode passar por cima da sociedade civil, já para não falar da personalidade de Emmanuel Macron e do autismo com que ele trata o país”, disse a historiadora.

Quanto a comparações com o passado, nomeadamente com a agitação social do Maio de 68, Danielle Tartakowsky recusa qualquer semelhança.

“Não há qualquer ponto de contacto com Maio de 68. Nessa altura, as barricadas dos estudantes eram usadas para defender o seu território, no Quartier Latin e houve uma violência defensiva, mas na semana passada, em Paris, os “coletes amarelos” estavam duplamente no território do outro. Não só vieram a Paris, mas ocuparam os bairros mais caros”, explicou a investigadora.

Um movimento singular que dificilmente se tornará num partido político.

“Parece-me contraditório que eles algum dia formem um partido, porque há desconfiança em relação ao sistema político. Mas a partir do momento em que os “coletes amarelos” se queiram organizar e ter uma palavra mais forte, vão precisar de uma estrutura. É um paradoxo, mas foi exatamente isso que aconteceu com o Republique en Marche. Macron queria ser a expressão dos cidadãos e teve de se estruturar”, considerou Jean Garrigues.

Mesmo com a aproximação de forças políticas aos “coletes amarelos”, nomeadamente por parte de Nicolas Dupont-Aignan, líder da extrema-direita, e a France Insoumise, partido de extrema-esquerda, o historiador considera que os “coletes amarelos” podem não engrossar as fileiras extremistas em França nas eleições e, sim, levarem a uma maior abstenção.

“Já estamos a assistir a uma radicalização das manifestações, com os militantes de extrema-direita e de extrema-esquerda a infiltrarem-se e a quererem tomar o movimento para as suas causas, mas não sei se isso terá uma tradução literal em termos de votos, porque uma das suas motivações é não pertencerem a nenhum partido. Se considerarmos essa vontade a política, o movimento pode não ter consequências eleitorais importantes, talvez apenas um impacto na abstenção”, acrescentou Jean Garrigues.