Coligação na Madeira tem vivido “momentos de tensão”

Rui Barreto destaca contudo o bom relacionamento

20 Jan 2020 / 08:26 H.

O líder do CDS/Madeira, parceiro do PSD no Governo Regional, faz um balanço positivo dos primeiros 100 dias de governação e destaca o “bom relacionamento” entre os elementos do executivo”, embora admita que já existiram “momentos de tensão”.

“A convivência tem corrido bem. Acho que o balanço é positivo”, declarou Rui Barreto, o centrista que ocupa o cargo de secretário da Economia no XIII Governo da Madeira, numa entrevista à agência Lusa.

O executivo, que tomou posse em 15 de outubro passado e que na quarta-feira faz 100 dias em funções, surgiu das eleições de 22 de setembro, nas quais o PSD perdeu pela primeira vez a maioria absoluta que sempre deteve na Madeira (elegeu 21 dos 47 deputados para a Assembleia Legislativa) e fez um acordo de coligação com o CDS, partido que garantiu três parlamentares, para assegurar a sua manutenção no poder.

O parlamento madeirense é ainda constituído por 19 deputados do PS, três do JPP e um do PCP.

Rui Barreto referiu que o CDS sempre “trabalhou na oposição” e que a chegada do partido ao Governo Regional “é um tempo novo”.

O responsável considera que o executivo madeirense “tem de ser uno - não é a soma de nove secretarias, é um governo que tem uma orgânica, um programa, que quer levar as coisas avante”.

“Portanto, devo dizer que tanto eu como o Teófilo Cunha [que também representa o CDS no executivo, com as pastas do Mar e das Pescas] temos verificado que o ambiente é bom, há um espírito de entreajuda, solidariedade e partilha”, descreveu.

Nesta “experiência nova” também para a população, porque nunca houve no arquipélago um governo da dois, é “natural que nem sempre estejam de acordo” os dois partidos no poder e houve já quem falasse em rutura, devido a desentendimentos sobre a área da saúde, na qual o CDS se tem empenhado.

“Eu disse que não preciso de estar todos os dias de acordo com o meu parceiro de coligação para estar globalmente satisfeito com a solução que encontrámos”, realçou Rui Barreto, explicando que nessas declarações “estava a dizer que não estava de acordo com algumas coisas que se estavam a passar”.

Contudo, já foi falado com o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, para que a seguir ao Orçamento Regional (em discussão entre hoje e quinta-feira) sejam nomeados os responsáveis necessários e o setor “comece de facto a trabalhar”, porque precisa de “estabilidade, confiança, o plano e a ação”.

Sobre o seu trabalho, o secretário regional explicou que estes primeiros 100 dias de governação “têm sido muito agitados”, porque tutela uma secretaria nova e “é preciso montar uma estrutura” para fazer funcionar as sete áreas da área económica que tem à sua responsabilidade.

O futuro do projeto de governo em coligação não o assusta: “Sinto que há confiança, que as pessoas desejam, sinto que queremos de facto, PSD e CDS, que o governo chegue ao fim, não a qualquer custo e a qualquer preço”.

Rui Barreto tem noção de que o projeto “não é um passeio no parque” e vão continuar a surgir, “às vezes, alguns momentos de tensão e momentos difíceis”. Porém, tem existido, “em situações de facto que são de limite, uma disponibilidade, uma abertura, vontade para dialogar”.

“Ninguém vira as costas um ao outro. Eu prefiro gerir discordâncias do que andar em ruturas”, vincou.

É por haver diálogo e vontade conjunta de encontrar soluções que acredita que o executivo se manterá durante toda a legislatura.

No final dos quatro anos, gostava que os madeirenses dissessem “desconfiámos muito no início, agora”.

“O melhor prémio é o reconhecimento que valeu a pena”, concluiu.

Acordo histórico exigiu ginástica e sangue frio

Segundo Barreto, a governação na Madeira está a viver um “momento histórico” e de aprendizagem com a coligação formada em 2019, depois de negociações que exigiram “sangue frio” e “muita ginástica”.

“É uma experiência nova para todos, é uma aprendizagem no exercício do governo e, por isso, nem todos, a todo o tempo, conseguem perceber as coisas, porque é a primeira vez e é histórico [ter] um governo de coligação na Madeira entre dois partidos”, declarou o também secretário regional da Economia.

Na noite eleitoral, o líder do PSD/Madeira convidou o CDS para um acordo de governação, visando assegurar o poder no arquipélago.

“Era um cenário que se avizinhava. Nunca tínhamos experienciado uma outra forma de governação sem ser um governo maioritário do PSD e é natural que houvesse um desgaste, como se foi verificando”, sublinhou Rui Barreto.

O CDS considera ter sofrido com o efeito da bipolarização, atendendo a que existiam dois partidos (PSD e PS) a disputar o centro político - “pela primeira vez esteve em causa quem venceria as eleições”.

Neste contexto, referiu, “o CDS foi penalizado pelo voto útil de quem queria que o PSD continuasse a governar ou quem queria uma alternância de poder para o PS”.

“Devo dizer, contudo, que no parlamento regional o CDS é o único partido à direita”, afirmou.

O acordo de coligação “obrigou a uma forte negociação”: “Se o povo tivesse dado mais força, teria negociado mais”, admitiu, reconhecendo que existiram então momentos de tensão e que os intervenientes nem sempre estiveram em concordância, como é “natural”.

O processo exigiu “sangue frio, muita persistência, muita temperança e muito sentido de pensar no geral e não bloquear em questões particulares”.

Este tipo de situações, indicou, obrigam “a muita ginástica, negociação, compromisso, investir muito no entendimento e não olhar em cada discórdia ou em cada não convergência para ruturas”.

Questionado sobre as pastas que o CDS tutela (Economia, e Mar e Pescas) e com o facto de não ter ficado com a Saúde, uma das bandeiras do partido na oposição, o líder do CDS/Madeira respondeu que “foi a solução das pessoas disponíveis para o exercício de funções de grande exigência que é pertencer a um governo”.

“O CDS quer é que o que está no programa seja globalmente cumprido, porque é esse o nosso principal propósito”, declarou.