Recorde aqui a entrevista de Conan Osíris ao DIÁRIO na sua visita à Madeira

Tiago Miranda concorre com o tema ‘Telemóveis’ no Festival da Canção

22 Fev 2019 / 12:30 H.

Antes de cair em graça, ou desgraça, dos portugueses, a propósito da sua participação no Festival da Canção com o tema ‘Telemóveis’, Conan Osíris passou pela Madeira em Novembro naquela que seria então a sua segunda vez a viajar num avião. O lisboeta, que trabalhou na sex shop mais antiga de Portugal e que com esse dinheiro acabou por comprar o seu primeiro computador, tem grandes hipóteses de representar Portugal na Eurovisão, em Israel, apontam-lhe os críticos.

Ao DIÁRIO, a propósito da sua visita à Região para actuar no ‘Aleste Ilhatrónica’, em pleno Mercado dos Lavradores, Tiago Miranda mencionou, em relação à sua música, que só está a interpretar as coisas à sua maneira. “É só a minha maneira de ver e fazer as coisas que gosto de ouvir”, esclarece o cantor numa entrevista que o DIÁRIO agora disponibiliza de forma gratuita aos seus leitores.

Porquê Conan Osiris? Podia dizer mil coisas acerca disso. Sei lá. São dois nomes que pesquisando as personagens que são dá para entender um pouco dos dois significados. Tem a ver com a dualidade das coisas, ou seja, de não ter de ser só muito calmo ou muito guerreiro. Há pessoas que atribuem bastante significado ao nome, há outras que simplesmente acham que são só dois nomes. Deixo isso sempre em aberto.

Quando se interessou pela música? Sempre gostei de música, mas acho que a primeira vez que comecei a mexer com música, numa forma mais primordial, foi quando a minha mãe me ofereceu um gravador de cassetes, que tinha microfone, então eu gravava cenas e invenções minhas por cima das cassetes. Às vezes estragava as cassetes todas à mulher. Isso é algo que nunca disse, até porque no outro dia estava a mexer nas minhas coisas e encontrei o gravador e lembrei-me disso, que já cantava para ‘dentro’ das cassetes. Tinha para aí sete ou oito anos.

Entretanto, esse ‘bichinho’ pela música começou a crescer? Exacto. Depois o resto é o resto. Comecei a ouvir muita música, comecei a gravar os meus próprios videoclips em cassetes de vídeo e via muitos programas que tinham rubricas musicais, nos anos 90, como o ‘Big Show Sic’ ou até o Herman. Depois é a mesma lengalenga de sempre, comecei a mexer no computador e cheguei até aqui.

Tem alguma fonte de inspiração? Tenho imensas fontes de inspiração e o folclore é algo que me inspira bastante. Os elementos de cada Região, por exemplo. A Madeira tem coisas muito inspiradoras para mim, isto é, toda a cena do artesanato ou dos folclores, aquilo que é antigo, mas com bons valores. Se for algo estúpido como matar animais eu não gosto. Às vezes, coisas que não têm nada a ver com música são muito inspiradoras para mim, porque isso conta a história das pessoas. As diferentes culturas em diferentes regiões do país é algo inspirador para mim.

Neste caso em particular é difícil compreender a sua música? Não acho. Ou gostam, ou não gostam. É normal. Acho que estar a analisar isso não é natural. O mais natural é ouvirem e dizerem se gostam ou não gostam.

Como é que a define? É música normal. Tem montes de coisas lá dentro, mas no final do dia é música. É o que costumo dizer, porque as pessoas é que têm de definir, não sou eu.

Mas baralha uma série de géneros musicais... Sim, pois, por isso não posso dizer que este é um estilo. Não tem propriamente nome é só a minha maneira de ver e fazer as coisas que gosto de ouvir.

E o que significa para si esta primeira presença na Madeira? É um sítio ao qual já queria ir há muito tempo e estou muito excitado para ir. Espero conseguir ver muitas coisas que tenho curiosidade em visitar. Para mim significa muito! Antes deste ano nunca tinha andado de avião sequer, portanto, esta será a minha segunda vez que vou voar num avião para se ter uma noção (risos).

Isso prova que a sua carreira está em ascensão? Isto não prova nada. Há muita gente que anda de avião todos os dias e não tem carreira (risos). Vou aí para estar junto das pessoas que me querem ver, o resto é ‘peanuts’.

O que é que falta à música portuguesa? Artistas como você? Claro que não. Sinceramente, acho que não falta muita coisa. Falta é às vezes as pessoas estarem mais abertas umas para as outras e assim mais artistas poderiam vir para a ‘frente’ e isso pode dar coragem aos artistas para fazerem mais coisas, então, se todos estivermos mais abertos para nos ouvirmos uns aos outros pode ser que a próxima coisa seja mais fixe, para que nós tenhamos mais coragem de fazer mais coisas sem estar a pensar que as pessoas não vão gostar, tendo menos medo de criar.

Sente que criou o seu próprio género musical? Não posso dizer isso. Ok, para as pessoas pode ser uma coisa nova, mas para mim é só uma mistura das coisas que eu gosto, portanto, não posso ser autoritário até esse ponto, de dizer que criei algo novo. Tudo já existe, só estou a interpretar à minha maneira, é só isso. O que é que sente quando lhe comparam ao António Variações? Sinto que é uma coisa com uma carga bastante pesada, porque quando me comparam a uma pessoa que já nem está cá e tanta gente gostava, as pessoas que não se sentem atraídas particularmente pela minha música podem se sentir ofendidas por se fazer essa comparação. Preferia que isso não fosse uma coisa tão presente na cabeça das pessoas. Ele era ele, eu sou eu.

Aqui a analogia talvez seja feita pelo facto de António Variações não ter sido compreendido como artista no seu tempo, ou não? Eu acho que ele foi compreendido, mas claro que há sempre pessoas que não compreendem as coisas. Até as coisas mais bem explicadas do Mundo algumas pessoas não vão entender. Por exemplo, há pessoas não entendem que o sol nasce, apesar das nuvens estarem lá à frente.

Mas ainda vivemos no ‘cubículo’ da música comercial? Não, não, não! Já houve uma evolução! Basta pensar que há 10 anos quase ninguém cantava em português e hoje toda a gente tem o à vontade para o fazer, porque os tempos avançaram de uma maneira que nós passámos a gostar das nossas próprias cenas e agora estamos com mais liberdade.

E foi essa liberdade que o fez lançar o seu álbum de maior sucesso, o ‘Adoro Bolos’? Óbvio. A liberdade é a coisa mais importante, porque se não houvesse liberdade não havia Internet para conhecer as coisas que conheço ou se não houvesse liberdade eu não tinha trabalhado numa ‘sex shop’ para ter dinheiro para comprar o meu computador. Tudo vem da liberdade.

Estava à espera de que o ‘Adoro Bolos’ tivesse tanto êxito? Eu não estava à espera de nada, eu estava apenas a fazer as minhas cenas. Sempre fiz música, agora é uma questão de evolução, se calhar estava mais aprimorado para chegar a mais pessoas quando lancei o álbum. Não sou muito de expectativas, porque basicamente quando criamos muitas expectativas de uma coisa sai o resultado oposto. Há muitas chances de ficarmos frustrados e eu gosto de aceitar as coisas que me vão aparecendo.

Você é diferente em cima do palco, porque envolve-se com o público e essa é uma das suas facetas nos espectáculos ao vivo. É uma forma de marcar a diferença ou simplesmente porque é genuíno naquilo que faz? No outro dia estive a pensar nisso. Eu acho que cheguei à conclusão que uma das razões pelas quais eu sou assim é porque tive sempre imensa dificuldade em me relacionar com muitas pessoas. Quando eu faço um ‘show’ e vejo que estão ali muitas pessoas, porque curtem de alguma coisa que eu fiz ou têm curiosidade em me ver, eu sinto que aquelas pessoas são um pouco minhas amigas, nem que seja por uma hora ou meia-hora. Eu sinto que naquele momento eu tenho de ser honesto para elas e expor o que estou a sentir naquela altura. Já tive espectáculos em que estive muito triste, muito doente, super excitado ou super aborrecido. Gosto de ter essa clareza quando vou para ao pé das pessoas.

E o que é que o futuro lhe reserva? Sei lá filho... eu posso sair de casa e ser atropelado por um camião TIR, não posso responder a isso. Não é algo que eu tenha poder para prever. Seja o que for, tudo acontece por uma razão e vou continuar a viver assim.

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