Gulbenkian expõe trabalhos de mulheres que protagonizaram a criação artística em Portugal

Lisboa /
19 Abr 2019 / 13:08 H.

Ofélia Marques, Mily Possoz, Sonia Delaunay, Alice Rey Colaço, Raquel Roque Gameiro, Sarah Affonso estão entre as mulheres artistas que abrem o roteiro da arte em Portugal, nos últimos cem anos, que a Gulbenkian vai inaugurar em maio.

O percurso intitula-se “As mulheres na Coleção Moderna. De Sonia Delaunay a Ângela Ferreira 1916-2018”, vai estabelecer-se no contexto da Coleção Moderna, tem curadoria de Patrícia Rosas, e vai destacar trabalhos de pintura, desenho, ilustração, têxteis, fotografia, vídeo, escultura e instalação, de uma seleção de criadoras, indicou à agência Lusa fonte da fundação.

Começa na época da primeira República (1910-1933), num ambiente de inquietação e ruturas estéticas, marcadas em Portugal, nomeadamente, pela obra de Amadeo de Souza-Cardoso, que fez parte do grupo de artistas que marcou o modernismo em Portugal.

A obra de Sonia Delaunay (1885-1979) é recordada com os seus estudos da cor e dos ‘círculos órficos’.

Nos anos de 1920, as mulheres portuguesas afirmaram-se também na ilustração de revistas da época, como a Panorama, a Ilustração ou a Civilização, bem como na ilustração de livros, normalmente destinados ao público infantil, como Mily Possoz (1888-1968) e Ofélia Marques (1902-1952).

No piso inferior do museu, serão apresentados livros ilustrados por uma série de artistas, que também incluem Alice Rey Colaço (1890-1979), Raquel Roque Gameiro (1895-1986), a pintora Sarah Affonso (1899-1983) e Maria Adelaide Lima Cruz (1908-1985).

O período da ditadura do Estado Novo (1933-1974) é denominado como a “década do silêncio” e, nos anos de 1950, os trabalhos neorrealistas exploraram as condições sociopolíticas que então se viviam, escreve a curadora, no texto de apresentação da mostra.

Neste sentido, é recordada a constituição da Gravura -- Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, em 1956, que fomentou a arte de gravar e que, no início, se aproximou do neorrealismo vigente.

Teresa Sousa (1928-1962), que tal como Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) estudou gravura no Atelier 17 de Stanley Hayter, em Paris, foi distinguida com o Prémio Gravura na I Exposição de Artes Plásticas, em 1957, da Fundação Calouste Gulbenkian.

A partir de 1961, a guerra colonial fomentou, no contexto artístico, mas não só, um movimento emigratório dos artistas portugueses para Paris e Londres, sobretudo como bolseiros da Gulbenkian, já que não encontravam no país condições mais favoráveis ao desenvolvimento da sua obra.

Foi o caso de Paula Rego (1935) que foi estudar para a Slade School of Fine Art, em Londres, entre 1952 e 1956, e aí fixou residência, em 1963, e também Menez (1926-1995), que partiu para Londres como bolseira, em 1964-1965 e em 1969.

Continuando no novo percurso expositivo, surgem os anos de 1960 e 1970, que ficaram marcados pelos experimentalismos: Maria José Oliveira (nascida em 1943), Ana Vieira (1940-2016), Túlia Saldanha (1930-1988) ou Helena Almeida (1934-2018) são artistas destacadas neste “universo de relações entre meios de trabalho, e em que o tema do corpo da artista ou a sua ausência refletem uma dimensão ao espaço de criação”.

Helena Almeida - falecida no ano passado - foi uma artista que rapidamente foi reconhecida nacional e internacionalmente, começando na pintura e desenvolvendo obra do minimalismo ao conceptualismo, da performance à fotografia, transpondo todos os grandes movimentos artísticos que marcaram a segunda metade do século XX.

“Corte Secreto” é uma das peças desta artista em destaque no percurso, com uma das suas obras mais emblemáticas e com que se apresentou em 1982 na Bienal de Veneza, no Pavilhão de Portugal, comissariado por Ernesto de Sousa.

Outra das suas obras que marcaram a História da Arte em Portugal, vem da série “Pintura Habitada”, e é composta por 14 fotografias intervencionadas numa mistura de azul-cobalto com azul-ultramarino.

Salette Tavares (1922-1994) e Ana Hatherly (1929-2015) participam nos primeiros cadernos de poesia experimental e destacaram-se pela originalidade das suas obras, estando representadas no percurso com o mobile (ou poema-instalação) “Bailia”, e a colagem “As Ruas de Lisboa”.

Ainda na senda do período pós-revolucionário em Portugal, Emília Nadal (1938) surge com trabalhos que refletem um cariz pop numa interpretação muito própria, ao reconfigurar a dimensão social e política portuguesa.

A peça “Slogan’s”, da artista, é constituída por mais de 120 latas em alumínio, focada na sociedade de consumo, dos slogans e da acumulação.

Clara Menéres (1943-2018) já em meados dos anos de 1980 vai aprofundar novas pesquisas em torno da luz e a aplicação na pedra de materiais como o néon. A sua obra é aqui representada através de “Lapis Cognitionis”, um monólito, cuja pedra maciça simboliza a matéria bruta, e a luz a energia espiritual, numa relação pedra-luz com um sentido vertical.

No decorrer das duas primeiras décadas do século XXI, “entra em cena uma geração de jovens artistas que se distingue das anteriores pela formação académica que realiza ou completa em instituições estrangeiras, e que posiciona já claramente as suas práticas e as suas obras em contextos e circuitos expositivos internacionais”, enquadra o texto sobre o novo percurso expositivo.

São destacadas artistas que trabalharam diferentes técnicas como o vídeo, o desenho, a pintura, que receberam prémios, algumas que finalizaram o doutoramento e expõem em Portugal e no estrangeiro.

Nesta área, serão reunidos trabalhos de artistas como Luísa Correia Pereira (1945-2009), Susana Gaudêncio (1977), Ana Cardoso (1978), Mariana Gomes (1983) ou Sara Bichão (1986).

Os visitantes vão poder ainda ver o vídeo de Maria Lusitano (1971), “Nostalgia”, situado entre o documentário e a ficção, produto de uma longa investigação que usa imagens de arquivo representativas do colonialismo português em Moçambique, bem como de entrevistas com portugueses nascidos nesse país, retornados depois da independência.

O percurso de artistas encerra com um trabalho de Ângela Ferreira (1958), que corresponde a uma série de desenhos, alguns deles produzidos no ano passado, e adquiridos pela Fundação Calouste Gulbenkian, nos quais a artista trata o tema dos diamantes na África do Sul.