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Ferry encalhado, dignidade à deriva

O estudo do IMT sobre a ligação em navio ferry Madeira–Continente nasceu encalhado: antes de largar amarras, já naufragara no cais. Declara a linha inviável porque não produz lucro imediato numa exploração comercial isolada, como se passageiros, viaturas, carga, redundância logística e continuidade territorial fossem luxos desquitados da contabilidade. A pergunta séria é outra: existe procura por um serviço público ou de interesse económico geral? Com custos portuários e operacionais elevados, carga contratada insuficiente e um operador a controlar a maior parte do transporte marítimo de mercadorias, o resultado jamais poderia ser distinto. Planta-se a conclusão, rega-se a metodologia e nasce a colheita desejada. Nenhuma batalha naval rivaliza com esta tática.

O ferry espanhol que, há anos, assegurou a ligação e perturbou o sossego do monopólio instalado acabou por ser afastado, com a cumplicidade extorsiva do Governo Regional nas taxas cobradas. O “mercado” respirou de alívio, os operadores retomaram a tranquilidade e a concorrência regressou ao arquivo das promessas esquecidas, com a carga a repovoar os navios porta-contentores. Hoje, o ferry é um capricho dispendioso que ameaça o monopólio instalado; o transporte contentorizado, concentrado em “espelhados operadores”, parece não suscitar dúvidas quanto a preços, dependência logística ou ausência de alternativas. Albuquerque, em 2015, fez do regresso do ferry um engodo eleitoral, mas qualquer isca é efémera. Um programa-piloto, com indicadores públicos de ocupação, receita, pontualidade e custo por passageiro e por unidade de carga sem cabeça de trator (apenas o atrelado), continua a parecer mais perigoso do que o rancor do ministro da Administração Interna.

Luís Neves, engalanado na própria importância, sente-se em casa na Madeira: terra hospitaleira, sobretudo para políticos que confundem responsabilidade com estabilidade de cargo. Por estas bandas, como se viu com Albuquerque e outros arguidos de ocasião, a demissão não é um gesto de ética, mas quase um acidente administrativo, normalmente só acionado quando já há detenção. Percebe-se assim a pose segura do ministro e a sua fé na impunidade política local. E, para coroar o quadro, teve a solidariedade cerimoniosa de Albuquerque (como no final de turno entre Ralph Wolf e Sam Sheepdog), num ato de ética republicana, tão credível como um fóssil de plástico plantado nas arribas da Lourinhã. O seu discurso no aniversário da PSP foi apenas mais uma demonstração de que a esdrúxula autoestima ministerial pode navegar sem carta, sem bússola e sem fiscalização e até com uma plateia fardada a “gramar” aquele fel destilado numa patológica homilia. Ele é o combustível do maior “incêndio” deste verão e vai imolando a confiança na República.

Neves parece cumprir o papel da cauda da lagartixa: desprende-se do réptil para distrair o predador e permitir a fuga do resto da governação, saúde, educação, etc. Desempenha-o com a mestria de um espantalho útil, arrastando a dignidade institucional pela lama sob a complacência de Montenegro, seu chefe (mas pouco). Na Madeira ninguém do PSD deverá sentir “vergonha alheia” desde 2024, mas saúdo as honrosas exceções.

Entretanto, a sentença que ilibou o Correio da Manhã, o jornalista madeirense Egídio Carreira e os demais arguidos perante a ação intentada pela Associação Atalaia Living Care, confirmou que o jornalismo não pode ser amordaçado por quem teme a luz do escrutínio.